por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1990, realizada em Itália entre 8 de junho e 8 de julho,
ficou conhecida como ‘Italia 90’. Foi um Mundial menos exuberante do ponto de
vista ofensivo do que 1982 ou 1986, mas muito forte em dramatismo, tensão
competitiva, pênaltis, histórias improváveis e imagens que ficaram na memória.
Participaram 24 Seleções, em 52 jogos, e a Alemanha Ocidental sagrou-se campeã
ao vencer a Argentina por 1x0 na final, em Roma.
‘Italia 90’ teve uma identidade visual e emocional muito forte: estádios
italianos remodelados, grandes transmissões televisivas, a mascote Ciao, o hino
“Un’estate italiana” e um ambiente de grande teatralidade. Porém, em campo, foi
uma competição associada a futebol cauteloso, jogos fechados e muita tensão
defensiva, registrando a média mais baixa de gols por partida (2,21).
Foi também uma Copa de muitos prolongamentos e decisões por pênaltis, muito
competitiva, mas menos fértil em futebol ofensivo, provavelmente pela Copa se
realizar no país do catenaccio (*) e
isso ter contagiado as demais seleções. No entanto, teve episódios históricos:
a surpresa dos Camarões, a consagração de Totò Schillaci, a tristeza de Paul
Gascoigne, a resistência argentina e a despedida da Alemanha Ocidental antes da
reunificação alemã.
Chile, França e México foram as ausências mais notadas: a França foi
afastada das eliminatórias da Copa pela Escócia; a seleções sul-americanas
foram suspensas. No caso do México devido à utilização de quatro jogadores
acima da idade permitida numa competição de seleções sub-20; no caso do Chile
foi mais complicado.
Durante as eliminatórias para a Copa entre Brasil e Chile, os torcedores brasileiros lançaram bomba de fumo que supostamente atingiram o goleiro Roberto Rojas, que sangrou da cabeça, saiu de maca, os companheiros protestaram e queriam o Brasil fora da Copa, mas o visionamento das imagens mostrou que Rojas simulara ferimentos com uma lâmina escondida sob a luva. Rojas foi suspenso durante dez anos e a Seleção do Chile afastada dos Mundiais de 1990 e 1994.
A Alemanha Ocidental, orientada por Franz Beckenbauer, chegou à Copa com
uma equipe muito forte e equilibrada, pontificando atletas como Lothar
Matthäus, Jürgen Klinsmann, Rudi Völler, Andreas Brehme, Pierre Littbarski e
Thomas Hassler.
Os alemães impressionaram desde o começo com vitórias claras sobre a
Jugoslávia e os Emirados Árabes Unidos e nas fases eliminatórias venceram os
Países Baixos, a Checoslováquia e a Inglaterra (nos pênaltis) antes de
reencontrar a Argentina na final e alcançar o terceiro Mundial da Alemanha Ocidental.
A Argentina chegou como campeã mundial em título, depois da vitória em
1986, mas já não tinha o mesmo brilho. Maradona ainda era figura central,
embora fisicamente limitado, e a equipa argentina foi pragmática, defensiva e
emocionalmente resistente.
A Seleção de Camarões surpreendeu vencendo a Argentina por 1x0 de Maradona,
em San Siro, no jogo de abertura da Copa, e foi uma grande surpresa associada à
força física, coragem e irreverência dos seus atletas, e tendo como figura
carismática Roger Milla, com 38 anos de idade. O atacante estivera presente na
Copa de 1986, aposentara-se em 1988, regressou em 1990, entrando várias vezes
como suplente, tornando-se um dos símbolos da Copa por ser o mais velho jogador
a competir, marcando gols decisivos, dançando junto à bandeirola de escanteio e
catapultando a seleção camaronesa para as quartas de final, feito inédito para
uma seleção africana naquela época.
Nas quartas de final Camarões chegou a estar vencendo a Inglaterra por 2x1, mas Camarões foi derrotado (na prorrogação) após dois pênaltis cobrados por Gary Lineker, mostrando que o futebol africano podia competir com as grandes potências mundiais.
A Argentina, depois da derrota inaugural com Camarões, classificou-se
facilmente e depois eliminou o Brasil nas oitavas, a Jugoslávia nas quartas e a
Itália nas semifinais, ambas nos pênaltis, enquanto o goleiro Sergio Goycochea
foi a grande figura da sua equipe, além de Maradona, por ter sido decisivo nos
desempates por pênaltis.
A Itália, como país organizador, entrou no Mundial com grande pressão. A seleção
tinha grandes nomes como Franco Baresi, Paolo Maldini, Giuseppe Bergomi, Roberto
Donadoni, Gianluca Vialli, Robert Baggio e Walter Zenga.
No entanto, a grande figura acabou por ser Salvatore ‘Totò’ Schillaci, que
se tornou o rosto emocional da competição: marcava, celebrava de olhos muito
abertos, com uma intensidade quase dramática, e foi conquistando o país jogo
após jogo, terminando como artilheiro da Copa, com seis gols, e premiado como o
Craque da Copa de 1986.
A Itália chegou às semifinais sem conceder qualquer gol e o goleiro Walter
Zenga estabeleceu uma longa série de invencibilidade, mas nas semifinais, em
Nápoles, a Argentina empatou por 1x1 e eliminou a Itália nos pênaltis.
Essa semifinal Itália x Argentina, disputada em Nápoles, foi uma das
grandes feridas emocionais da competição para os italianos pela sua dimensão
simbólica. Maradona jogava no Nápoles e era idolatrado naquela cidade, apelando
então, antes do jogo, à identificação dos napolitanos com ele e com a
Argentina, explorando a tensão histórica entre o sul e o norte de Itália.
Em campo, Schillaci marcou para a Itália, mas Caniggia empatou para a
Argentina. Foi o primeiro gol sofrido pela Itália, o suficiente para ser
eliminada nos pênaltis após o empate por 1x1 no tempo regulamentar. Foi um dos
momentos mais dramáticos de ‘Italia 90’: a anfitriã, que parecia destinada à
final, caiu perante a Argentina de Maradona, precisamente na cidade onde
Maradona era uma figura quase mítica.
Quanto ao Brasil, com jogadores como Careca, Dunga, Alemão, Branco e Müller, caiu logo nas oitavas de final para a Argentina, embora tivesse dominado grande parte do encontro e criando várias oportunidades. No entanto, o jogo foi decidido por Maradona: mesmo condicionado fisicamente, recebeu a bola, avançou pelo meio, atraiu vários adversários e fez o passe para Caniggia, que ultrapassou o goleiro Taffarel e marcou o gol com o qual a Argentina eliminou o Brasil: com pouco brilho coletivo, mas enorme capacidade de sofrimento e jogadores decisivos nos momentos certos.
A Inglaterra realizou a sua melhor campanha desde 1966, chegando às semifinais
com figuras como Gary Lineker, Peter Shilton, David Platt, Chris Waddle, Stuart
Pearce e, sobretudo, Paul Gascoigne, que se tornou uma das figuras emocionais da
competição: na semifinal contra a Alemanha Ocidental recebeu cartão amarelo,
que o deixaria suspenso da final, caso a Inglaterra se qualificasse, e
desfez-se num mar de lágrimas.
Porém, o jogo terminou empatado por 1x1, após prolongamento e a Alemanha
Ocidental venceu nos pênaltis, tornando-se
‘Italia 90’ um trauma e, ao mesmo tempo, uma memória afetiva: a equipa ficou
perto da final, Gascoigne transformou-se num ícone popular e os pênaltis tornaram-se
parte da narrativa dolorosa do futebol inglês.
Nos oitavos de final, a Alemanha Ocidental defrontou os Países Baixos, sob
grande rivalidade, com jogadores fantásticos de parte a parte: Marco van
Basten, Ruud Gullit, Franck Rijkaard e Ronald Koeman, de um lado; Matthäus,
Klinsmann, Rudi Völler e Brehme, do outro lado.
Franck Rijkaard e Rudi Völler foram expulsos, num episódio tenso e
controverso e a Alemanha venceu por 2x1, eliminando uma seleção neerlandesa que
pelo seu talento prometia muito mais do que conseguiu mostrar.
A Irlanda, orientada por Jack Charlton, fez uma campanha muito marcante,
estreando-se em fases finais de Mundiais e chegando às quartas de final sem
vencer qualquer jogo no tempo regulamentar: empatou os três jogos da fase de
grupos, eliminou a Romênia nos pênaltis nas oitavas de final e só caiu frente à
Itália nas quartas de final, realizando uma campanha baseada em organização,
espírito coletivo e grande ligação emocional aos eus torcedores.
A final, disputada em 8 de julho de 1990, no Estádio Olímpico de Roma, foi
uma das mais tensas e menos brilhantes da história dos Mundiais. Reeditou a
final de 1986, mas com desfecho oposto: a Alemanha Ocidental venceu a
Argentina.
O jogo foi duro, truncado e polêmico. A Argentina terminou com nove
jogadores, após as expulsões de Pedro Monzón e Gustavo Dezotti. Monzón
tornou-se o primeiro jogador expulso numa final de Mundial, aos 65’. O único
gol surgiu aos 85’, em pênalti convertido por Brehme, após falta assinalada
sobre Rudi Völler.
O pênalti do título foi altamente polêmico. As imagens da televisão mostram
que Sensini tocou primeiro na bola antes do contacto físico, caracterizando um
desarme normal. S argentinos cercaram e empurraram o árbitro, Maradona chorou
em campo e declarou que o juiz agiu intencionalmente contra a Argentina. Anos
mais tarde, lendas alemãs como Lothar Matthäus e o próprio autor do gol, Andreas
Brehme, admitiram publicamente que o pênalti não existiu e Völler havia
‘cavado’ a falta.
Foi a primeira vez que uma seleção – a Argentina – não marcou gols numa final da Copa do Mundo.
A Alemanha conquistou o seu terceiro título mundial e Beckenbauer tornou-se
figura histórica por vencer a Copa de 1974, como jogador, e a Copa de 1990, como
treinador.
Após uma Copa do Mundo meio entediante, a FIFA alterou as regras e estabeleceu
que os goleiro não poderiam agarrar a bola se fosse passado por um companheiro
de equipe, tendo obrigatoriamente que jogar com o pé.
Em resumo, não sido jogado um grande futebol, a Copa foi uma das mais
fortes em memória emocional, tendo ‘heróis’ inesperados como Schillaci e Roger
Milla; equipas sobreviventes, como a Argentina; grandes desilusões, como
Brasil, Países Baixos e Itália; e momentos que ultrapassaram o resultado, como
as lágrimas de Gascoigne ou a relação complexa entre Maradona, Nápoles e a
seleção italiana.
Foi uma Copa de tensão, de pênaltis, de defesas, de jogos truncados e das
histórias humanas. A Alemanha Ocidental sagrou-se campeã mundial, mas ‘Italia
90’ ficou na memória coletiva como uma competição de grande carga simbólica, mais
dramática do que brilhante, mais emocional do que ofensiva.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Alemanha Ocidental 1x0 Argentina
» Gols: Andreas Brehme, aos 85’ (pen.)
» Data: 8 de julho de 1990
» Local: Estádio Olímpico, em Roma (Itália)
» Público: 73.603 espectadores
» Árbitro: Edgardo Codesal Méndez (México)
» Disciplina: cartão amarelo – Rudi Völler (Alemanha) e Gustavo Dezotti,
Pedro Troglio e Diego Maradona (Argentina); cartão vermelho – Gustavo Dezotti e
Pedro Monzón (Argentina).
» Alemanha Ocidental: Bodo Illgner; Klaus Augenthaler, Guido Buchwald,
Jurgen Kohler e Thomas Berthold (Stefan Reuter); Andreas Brehme, Thomas Hässler
e Lothar Matthäus; Pierre Littbarski, Jürgen Klinsmann e Rudi Völler. Técnico:
Franz Beckenbauer.
» Argentina: Sergio Goycochea; Juan Simón, Oscar Ruggeri (Pedro Monzón),
José Serrizuela e Néstor Lorenzo; Roberto Sensini, José Basualdo e Pedro
Troglio; Jorge Burruchaga (Gabriel Calderón), Diego Maradona e Gustavo Dezotti.
Técnico: Carlos Bilardo.
(*) A etimologia da expressão catenaccio
vem do italiano, que significa literalmente “ferrolho”, “tranca” ou “pota
trancada”, derivando de catena (“corrente”, “cadeia”, por via do latim tardio catenaceum. No futebol o conceito
caracteriza-se por uma linha defensiva sólida, com uma forte ênfase na
organização e no controle do espaço. O sistema apresenta uma linha de quatro
defensores e um líbero atuando na frente do goleiro, minimizando oportunidades
de gol do adversários e priorizando a defesa e o contra-ataque. Embora
associado ao futebol italiano o sistema remonta ao técnico austríaco Karl
Rappan, que implementou o esquema na Suíça nas décadas de 1930-1940, sendo mais
tarde aperfeiçoado e popularizado em Itália por Helenio Herrera, especialmente
na Internazionale de Milão na década de 1960 (1960-1968).
Fontes: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com;
www.footballhistory.org; www.sofascore.com; www.theguardian.com.





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