quinta-feira, 30 de julho de 2026

Don Carlito em território inimigo

Crédito: IA.

por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo

Há pessoas que desafiam o destino. Don Carlito Bandoneon desafia o bom senso. Tudo começou quando ele anunciou, com a solenidade de quem comunica um noivado real:

“Meus queridos alunos, hoje não haverá aula de tango. A pátria me convoca.”

Perguntei qual pátria, porque com Don Carlito nunca se sabe. 

Ele levou a mão ao peito, fechou os olhos e respondeu:

“A Argentina, naturalmente.”

Era noite de Copa do Mundo. Argentina em campo. O problema é que o jogo seria assistido num bar tomado por brasileiros. Gente pintada de verde e amarelo, usando chapéu com bandeira, camiseta da seleção, peruca, corneta e uma confiança injustificável na tímida seleção da Inglaterra.   

Eu deveria ter desconfiado quando Don Carlito apareceu vestido como se fosse receber uma medalha do presidente da República. Terno azul-marinho impecável. Sapatos de verniz capazes de refletir o telão. Lenço de seda no bolso. Cachecol azul e branco cuidadosamente dobrado sobre os ombros. E um perfume tão forte que chegou ao bar antes dele.

Quando a porta se abriu, o ambiente silenciou.

Foi um daqueles silêncios históricos, semelhantes ao momento em que alguém derruba um bolo de casamento ou anuncia aumento de condomínio.

Don Carlito observou lentamente a multidão verde-amarela e perguntou, com absoluta tranquilidade:

 “Buenas noches... Onde fica a torcida civilizada?”

Um rapaz respondeu:

“Aqui é Brasil, professor!”

Don Carlito sorriu com piedade:

“Meu jovem, civilização não tem nacionalidade. Tem elegância.”

Sentou-se exatamente no centro do bar, como quem ocupa um território diplomático. Pediu um café. O garçom perguntou se ele não preferia cerveja. Don Carlito suspirou e alertou que cerveja antes do jogo compromete a precisão emocional do torcedor. Ninguém compreendeu mas todos fingiram que sim. 

O jogo começou.

A cada ataque da Argentina, Don Carlito se levantava da cadeira, como se fosse decolar. A cada ataque do adversário fazia sinal da cruz, ajustava o cachecol e murmurava frases em espanhol que provavelmente não existiam em nenhum dicionário.

Foi, então, que um brasileiro decidiu provocá-lo:

“Maradona acabou!”

Don Carlito virou-se lentamente, como um vilão elegante de novela mexicana:

“Meu jovem, Pelé jogava futebol. Maradona escrevia poesia com a chuteira.”

O bar explodiu em protestos.

Outro rapaz gritou:

“Messi nem é tudo isso!”

Don Carlito levou a mão ao peito:

“Senhor, existem blasfêmias que nem o VAR consegue revisar.”

As mesas começaram a rir. Até quem discordava dele achava impossível não gostar daquela figura. Mas o verdadeiro espetáculo ainda estava por vir. Descobrimos, durante um escanteio, que Don Carlito possuía uma teoria secreta. Segundo ele, a Argentina só vencia quando certas condições energéticas eram respeitadas:

“Este terno é o mesmo da semifinal de 2022. Este perfume foi usado contra a Holanda. E estes sapatos nunca testemunharam uma derrota em mata-mata.”

A partir desse momento, o bar entrou num regime de ditadura supersticiosa. Ninguém podia mudar de lugar. Ninguém podia cruzar as pernas. Ninguém podia levantar durante cobrança de falta. O garçom tentou servir uma cerveja. Don Carlito ergueu a mão como um maestro interrompendo a orquestra.

“Agora não! A espuma interfere na circulação astral da bola!”

E quando a televisão travava por um segundo, Don Carlito apontava para o telão:

“Viu? O universo está recalculando a jogada.”

No intervalo, a situação piorou. Ele resolveu explicar por que torcia pela Argentina mesmo cercado de brasileiros. Levantou-se, ajeitou o bigode e discursou:

“Meus amigos, eu não torço contra o Brasil. Eu torço a favor do tango. Abandonar a Argentina seria como um filho negar a própria mãe.”

Uma senhora perguntou:

“E o futebol?”

“Futebol dura noventa minutos. O tango dura a vida inteira.”

Alguns aplaudiram, outros vaiaram. No segundo tempo, a tensão atingiu níveis absurdos. Don Carlito já não piscava. Segurava a xicara de café como quem segura um artefato nuclear.

A cada lance perigoso, agarrava o braço do desconhecido mais próximo. Em determinado momento, abraçou um torcedor da Inglaterra sem perceber. O inglês ficou tão emocionado que começou a torcer pela Argentina também.

Então, aconteceu o GOOOOOLLLL!!!!

O bar explodiu. Metade comemorava, metade lamentava.  

No meio do caos, Don Carlito levantou-se, retirou o celular do bolso, conectou uma caixa de som e, para espanto geral, começou a tocar um tango.

Todos pararam. Ele abriu os braços e declarou:

“Senhores, gol se comemora de pé. Vitória se agradece dançando.”

Antes que alguém reagisse, já havia convidado uma brasileira para dançar. Ela aceitou por puro choque psicológico. Don Carlito a conduziu pelo corredor entre as mesas com a elegância de quem atravessa a Avenida Corrientes.

Os argentinos bateram palmas. Os brasileiros começaram a marcar o compasso. Em menos de um minuto, o bar inteiro dançava. Ninguém mais discutia impedimento. Ninguém falava de arbitragem. Ninguém lembrava da Inglaterra.

Havia apenas um professor de tango, um salão improvisado e uma multidão descobrindo que rivalidade fica mais difícil quando alguém nos convida pra dançar.

Quando a música terminou, um brasileiro perguntou:

“Professor, afinal o senhor veio aqui para ver futebol ou para dar aula?” 

Don Carlito ajeitou o cachecol, alisou o bigode e respondeu:

“Meu rapaz, eu vim provar que existem três idiomas universais: o sorriso, o futebol e o tango. Felizmente, eu falo os três com sotaque portenho.”

O bar veio abaixo em gargalhadas.

Na saída, já perto da meia-noite, encontrei Don Carlito na calçada observando a lua como um poeta aposentado.

Perguntei se estava feliz com o resultado. Ele sorriu daquele jeito perigosamente charmoso que costumava preceder uma frase inesquecível.

“Minha querida, ganhar um jogo é importante. Mas transformar um bar cheio de rivais em um salão de dança... isso, sim, merece prorrogação.”

E saiu caminhando pela rua com seus sapatos de verniz brilhando sob os postes, enquanto eu concluía que Don Carlito talvez seja o único argentino capaz de entrar em território inimigo e sair aplaudido pelos próprios adversários.   

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Don Carlito em território inimigo

Crédito: IA. por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo Há pessoas que desafiam o destino. Don Carlito Bandoneo...