domingo, 21 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1978: consagração de Kempes, pressão da ditadura, manobras várias e goleada suspeita

Cartaz da Copa do Mundo de 1978. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1978 realizou-se na Argentina, entre 1 e 25 de junho, com 16 seleções. Foi ganha pela Argentina, que venceu os Países Baixos por 3x1 após prorrogação, conquistando o seu primeiro título mundial. Mario Kempes foi a grande figura da prova e terminou como artilheiro, com 6 gols.

O primeiro grande marco foi a vitória da Argentina em casa, num contexto de enorme pressão política e social. A equipa treinada por César Luis Menotti chegou ao título com um futebol ofensivo, tendo como figuras centrais Mario Kempes, Daniel Passarella, Ubaldo Fillol, Osvaldo Ardiles, Leopoldo Luque e Daniel Bertoni. A final, no Estádio Monumental de Buenos Aires, terminou empatada em 1x1 no tempo regulamentar, depois de Dick Nanninga igualar para os Países Baixos. Na prorrogação Kempes marcou novamente e Bertoni fechou o resultado em 3x1.

Os Países Baixos chegaram à segunda final consecutiva de uma Copa do Mundo, depois de já terem perdido em 1974 contra a Alemanha Ocidental. Em 1978 voltou a perder contra a seleção anfitriã. A equipa neerlandesa já não tinha Johan Cruyff, cuja ausência foi muito discutida durante anos; mais tarde, o próprio explicou que a decisão não se deveu apenas a razões políticas de oposição à ditadura argentina, mas também a um episódio grave de tentativa de sequestro contra a sua família em Barcelona.

A Argentina fez o seu ‘trabalho de casa’ para se beneficiar e prejudicar o conjunto brasileiro, sempre candidato ao título: enquanto os argentinos para disputarem os seus 7 jogos percorreram 618 quilômetros, os brasileiros tiveram que percorrer… 4.659 quilômetros!

Um acontecimento muito significativo para o futebol do continente africano foi a Tunísia tornar-se a primeira Seleção africana a ganhar um jogo numa Copa do Mundo, vencendo o México por 3x1 e empatando também com a Alemanha Ocidental em 0x0, perdendo apenas para a Polônia.

Gol do Brasil em vitória por 2x1 sobre a Itália. Crédito: Eurico Dantas | Agência O Globo.

A vitória da Tunísia sobre o México foi tanto mais importante quanto o país norte-americano efetuou um investimento astronômico na preparação da equipe, gastando 200 milhões de dólares com o objetivo de conseguir o melhor resultado de sempre num Mundial. Porém, o balanço foi amplamente catastrófico: três jogos, três derrotas, dois gols marcados e 12 sofridos.

Como curiosidade muito típica da parcialidade do dono do apito em jogos de futebol, vale lembrar que o Brasil x Suécia, na estreia da competição, terminou em polêmica. Com o placar empatado em 1x1, já na prorrogação houve um escanteio a favor do Brasil e, na sequência do lance, Zico fez de cabeça o 2x1. Gol invalidado pelo árbitro galês Clive Thomas alegando que apitara o fim do jogo quando a bola estava... no ar (!). O Brasil protestou, de nada valeu e o árbitro nunca mais apitou um jogo da Copa do Mundo.

Outro acontecimento decisivo foi o jogo Argentina x Peru, na segunda fase de grupos. A Argentina precisava vencer por uma diferença elevada para ultrapassar o Brasil e chegar à final. Ganhou por 6x0, resultado que lhe permitiu passar à final por diferença de gols. Este jogo tornou-se uma das maiores polêmicas da história dos Mundiais, porque a Argentina sabia antecipadamente de quantos gols precisava, uma vez que o Brasil já tinha jogado.

O Brasil, que contou com os atletas botafoguenses Rodrigues Neto (4 partidas, titular substituto de Edinho a partir do 3º jogo) e Gil (titular em 6 das 7 partidas), terminou em terceiro lugar, depois de vencer a Itália no jogo de atribuição do 3º e 4º lugares. A seleção brasileira ficou invicta na competição, o que levou alguns comentadores e protagonistas da época a considerá-la uma espécie de “campeã moral”, sobretudo devido à polémica em torno da passagem da Argentina à final.

Botafogo de 1977: da esquerda para a direita, em pé, Perivaldo, Zé Carlos, Luisinho Rangel, Rodrigues Neto, Renê e Osmar; em baixo, Gil, Mendonça, Nilson Dias, Bráulio e Paulo Cézar.

Porém, a maior marca extradesportiva do Mundial de 1978 foi o facto de ter decorrido sob a ditadura militar argentina, instaurada após o golpe de Estado de 1976. O regime usou a competição (ato típico de todas ditaduras de extrema-direita e de extrema esquerda) como instrumento de propaganda e de legitimação internacional, enquanto o país vivia repressão política, desaparecimentos forçados e graves violações dos direitos humanos. Houve movimentos internacionais de boicote, especialmente na Europa, com slogans como “Football yes, torture no”.

O jogo Argentina 6x0 Peru permanece envolto em suspeitas. Ao longo dos anos surgiram acusações, testemunhos contraditórios e teorias sobre pressões políticas, possíveis acordos entre governos ou incentivos indevidos.

Contudo, não existe consenso histórico definitivo nem prova universalmente aceite que demonstre de modo conclusivo uma combinação do resultado. O que é seguro é que o calendário favoreceu a Argentina, porque jogou depois do Brasil e sabia exatamente o resultado de que precisava.

A própria final também teve episódios tensos. Os neerlandeses acusaram os argentinos de atrasarem deliberadamente o início do jogo e de criarem pressão psicológica, nomeadamente através da contestação ao gesso/proteção usado por René van de Kerkhof no braço. Os Países Baixos recusaram comparecer à cerimônia oficial de entrega das medalhas, sinal claro do mal-estar após a final.

Houve ainda o episódio dramático de Rob Rensenbrink, que quase deu o título aos Países Baixos no último minuto do tempo regulamentar: com o jogo empatado em 1x1, o seu remate bateu na trave. Se tivesse entrado, os Países Baixos teriam provavelmente sido campeões mundiais. Na arquibancada, um espectador argentino, de 49 anos, teve um problema cardíaco no momento em que Rensenbrink acertou a trave do goleiro Ubaldo Fillol. Foi socorrido a tempo e recuperou, assistindo minutos depois ao triunfo da Argentina na prorrogação.

Gol de Kempes na final, rematando por detrás da marcação e fazendo a bola passar sob o corpo do goleiro. Gol de craque. Captura de tela (colorizada) | Reprodução.

Em resumo, a Copa do Mundo de 1978 ficou marcada por três dimensões: a consagração futebolística da Argentina, liderada por Mario Kempes; a segunda derrota consecutiva dos Países Baixos numa final; e uma forte carga política, associada à ditadura argentina e à polêmica do jogo com o Peru. Foi, por isso, um dos Mundiais mais controversos da história do futebol, a par das suspeitas sobre doping da Alemanha Ocidental na final de 1954 e do claro favorecimento da Inglaterra na final de 1966.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Argentina 3x1 Países Baixos

» Gols: Mario Kempes, aos 38’ e 105’, e Daniel Bertoni, aos 115’ (Argentina); Dick Nanninga, aos 82’ (Países Baixos)

» Competição: Copa do Mundo de 1978

» Data: 25 de junho de 1978

» Local: Estádio Monumental / River Plate Stadium, em Buenos Aires (Argentina)

» Público: 71.483 espectadores

» Árbitro: Sergio Gonella (Itália); Assistentes: Ramón Barreto (Uruguai) e Erich Linemayr (Áustria)

» Disciplina: cartão amarelo – Osvaldo Ardiles e Omar Larrosa (Argentina) e Ruud Krol, Wim Suurbier e Jan Poortvliet (Países Baixos)

» Argentina: Ubaldo Fillol; Jorge Olguín, Luis Galván, Daniel Passarella e Alberto Tarantini; Américo Gallego, Osvaldo Ardiles (Omar Larrosa) e Mario Kempes; Daniel Bertoni, Leopoldo Luque e Oscar Ortiz (René Houseman). Técnico: César Luis Menotti.

» Países Baixos: Jan Jongbloed; Wim Jansen (Wim Suurbier, Ernir Brandts, Ruud Krol e Jan Poortvliet; Johan Neeskens, Arie Haan e Willy van de Kerkhof; René van de Kerkhof, Johnny Rep (Dick Nanninga) e Rob Resenbrink. Técnico: Ernst Happel.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; nationalfootballmuseum.com; sports.yahoo.com; www.britannica.com; www.fifa.com; www.historyworkshop.org.uk; www.thetimes.com

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