por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Paulo dos Santos Fernandes Filho, o ‘Mongol’,
nasceu no dia 5 de dezembro de 1968 (outras fontes mencionam fevereiro), no
Jacarezinho, estado do Rio de Janeiro (RJ), atuando como zagueiro e
lateral-esquerdo, medindo 1,87m de altura e pesando 85kg.
Mongol era pobre, negro e criado numa
comunidade do Rio de Janeiro. O seu pai era alcoólatra e espancava amiudadas
vezes as suas irmãs, a mãe suicidou-se.
Apenas com a sexta série do primeiro grau
escolar, Mongol foi lixador de cadeiras na infância e um dia sonhou ser
futebolista, acabando por tentar a sua sorte treinado no América e na
Portuguesa.
O jovem era talentoso e em 1986, pela mão de
Ferretti, ingressou no Botafogo de Futebol e Regatas, passando um ano na equipe
de juniores e logo depois promovido pelo técnico Joel Martins, na época em que
a sua mãe se suicidou.
Rapidamente o talentoso atleta, que estava
indiciado para vir a substituir Mauro Galvão, chegou à Seleção Brasileira
Sub-20, em 1987, disputando o Campeonato Sul-americano, na Colômbia. Em 1989
fez parte do elenco botafoguense Campeão Carioca de 1989, que desfez o jejum de
21 anos sem o título Carioca.
A vida parecia começar a sorrir-lhe, mas o
passado trágico acabou por lhe pesar e a falta de orientação pedagógica/psicológica
a quem teve uma infância desastrosa colheu mais uma vítima do infortúnio da
pobreza.
Tudo começou durante uma excursão à Europa,
quando Emil Pinheiro, então vice-presidente do futebol, e a comissão técnica,
acusaram Mongol de furtar pares de tênis de uma loja na Alemanha, levando ao
rompimento entre Emil e Mongol.
Emil Pinheiro queixou-se, ainda, e sobretudo,
de Mongol só comparecer aos treinos quando se aproximava a data de renovação do
contrato.
Face ao rompimento com o atleta, e sem
ambiente no Clube, Mongol foi emprestado ao América de Três Rios, mas após
escassos quatro jogos sofreu um acidente rodoviário a mais de 120km/hora,
batendo numa mureta, caindo numa ribanceira e quase perdendo a vida. Na época
declarou: – “Quase acabei com o
Mongomóvel.” – o Monza que Emil lhe oferecera.
Porém, as faltas aos treinos continuaram e os dirigentes do Alvirrubro devolveram Mongol ao Botafogo. Emil não esteve com cerimônias e declarou que ele não jogaria mais no Botafogo. Porém, Mongol não sabia disso, teve quatro meses sem receber salário e apelou para Valdir Espinosa, mas o que ouviu do auxiliar-técnico Gil foi desesperante: – “Está colhendo tudo o que plantou.”
Mongol não conseguiu arrumar um Clube para
treinar visando a sua recuperação e voltou a tentar chegar à fala com Emil
Pinheiro, mas até o vestiário do Maracanã lhe foi vedado, declarando então: – “Estou com fome. Um dente meu já caiu, vendi
o carro e dinheiro acabou. Tenho vivido
com o apoio da família, mas confesso que já penso seriamente em viver de outras
paradas fora da lei, fazendo uns ganhos.”
Despejado do apartamento que Emil alugara no
Cachambi, a Mongol restava começar do zero. Conseguiria?...
Fora do Botafogo em 1991, ainda passou pelo
Noroeste (1992) e pelo Remo (1993), mas o seu destino fora traçado muito antes:
sem dinheiro e sem casa para morar, a vida fugia-lhe e o horizonte fechava-se.
Desesperado e sem ferramentas pessoais para
discernir melhores caminhos, Mongol optou mesmo pelo pior, acabando por
escolher um caminho sem saída e sem regresso. Entre tragédias familiares e
problemas pessoais, a cabeça não teve lucidez para pensar e arrepiar caminho em
busca do regresso aos campos de futebol, juntando-se então à criminalidade.
Mongol teve a chance de mudar a sua vida e a
da sua família, mas as vicissitudes do passado e as suas más decisões tiveram
um retorno inverso ao desejado; refém de si próprio, Mongol caminhou vorazmente
para o abismo, não salvando a sua família da pobreza.
Envolvido com gente do crime, o desenlace da
sua vida foi fatalmente efêmero. Em 1997, com apenas 28 anos, Mongol foi
assassinado em Jacarezinho, em circunstâncias nunca esclarecidas.
Mongol não deixou saudades na torcida
botafoguense, nem no futebol brasileiro, mas o caso da sua vida foi semelhante
ao caso de tantos outros meninos de rua que sonham jogar futebol e ser felizes,
mas as condições excludentes em redor de famílias desfavorecidas trazem amiudadas
vezes marcas indeléveis cobradas pelo futuro.
São marcas que tendem a gerar desperdícios humanos
e que pedem estruturas pedagógicas/psicológicas de apoio que gerem equilíbrios –
no caso, no âmbito dos clubes de futebol –, porque o desporto em geral e o
futebol em particular, deveriam ser exemplo da sentença latina mens sana in
corpore sano (‘mente sã em corpo são’).
Fontes principais: https://museuazulino.blogspot.com; https://www.diariodorio.com; https://www.museudapelada.com; https://www.zerozero.pt; Instagram ‘historiadogloriosobotafogo’.

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