quinta-feira, 2 de junho de 2016

A tragédia do poeta (Antero de Quental)

Antero de Quental

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

“A natureza em mim é conservadora, só o espírito é que é revolucionário.”

– ANTERO DE QUENTAL (1842-1891)

Poema escrito em 1977, inspirado no ensaio “A Tragédia Comotiva de Antero”, publicado no livro O ESPÍRITO HUMANO – 4ª edição, Livraria São José, Guanabara, 1961 –, de autoria do eminente médico, literato e acadêmico Inaldo de Lyra Neves-Manta (1903-2000), que me presenteou um exemplar – quando eu tinha 21 anos –, de honrosa dedicatória: “Para a inteligência de Fernando Peixoto, com um abraço bem apertado. Rio, 01.06.1967”.

E também A ARTE E A NEUROSE DE JOÃO DO RIO – 4ª edição, Livraria São José, 1960 – sobre Paulo Barreto (1881-1921) – jornalista, cronista, contista, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras – que iria influenciar definitivamente o pseudônimo que escolhi em 1977: ‘João Praiano’. Mais uma vez Neves-Manta foi pródigo em elogios: “Para Fernando Peixoto e a sua curiosidade de jovem psicólogo. Rio, 20.11.1967”.

No ano seguinte, novo brinde literário: A ALMA DO HOMEM – 3ª edição, mesma livraria e ano de publicação do primeiro – e belos dizeres do escritor: “Para Fernando Peixoto, tão cioso de sua cultura. Rio, 01.04.1968”.

O “jovem psicólogo” acabou enveredando pelo Jornalismo, mantendo como livros de cabeceira as obras do saudoso doutor Inaldo de Lyra Neves-Manta – que, desde o ano 2000, deve estar psicanalisando o Criador, por certo um manancial inesgotável – um caso clássico de tripla personalidade – às suas observações e críticas sempre pertinazes.

Capa de livro

Duas balas ligeiras,
a ideia cristalizando,
tomando forma na mente.
A angústia o dominava,
as dúvidas o possuíam.
Crente e descrente,
sua alma sofria.

Duas balas fagueiras
na metafísica incerteza,
nas crises melancólicas,
nas posturas místicas,
no pessimismo filosófico.

Duas balas brejeiras
na crise existencial,
na dor física e moral,
na neurose do asceta,
na ambivalência do poeta.

---Certa vez, em Paris,
ouviu de mestre Charcot:
“Vous n’avez rien à l’épine;
vous avez une maladie de femme
transportée dans um corps d’homme;
c’est l’hystérisme”. (*)

Duas balas matreiras
poriam fim às aflições,
à loucura iminente,
à dualidade espiritual;
“Por que ser, quando se não é?”

Duas balas certeiras,
duas balas na cabeça.
Atira, não hesita,
estoura os miolos.
Foi-se o pensador genial,
agora descansa, em paz.
Repousa Antero de Quental.

(*) Tradução: “O senhor nada tem na espinha;
o senhor tem uma doença feminina
transportada num corpo masculino;
é o histerismo.”

Sigmund Freud

Considerado então um distúrbio mental predominantemente feminino, o ‘histerismo’ incluía-se campo das ‘neuroses’ – ‘histeria de conversão’ e ‘histeria de angústia’ – em meados do século 19, à época de Jean-Martin Charcot (1825-1893), cientista, professor e neurologistafrancês, e de seus discípulos, como o anatomopatologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), neurologista que viria a fundar uma nova ciência, a Psicanálise. E com ela, a humanidade nunca mais seria a mesma...

Jean-Martin Charcot

AO DOUTOR NEVES-MANTA

Este trabalho é dedicado ao médico pernambucano I. de L. Neves-Manta (1903-2000)  – como gostava de assinar, evitando assim um trocadilho, “delira”, com o seu sobrenome  –, amigo de meu pai, um baiano de Salvador, criado em Penedo, Alagoas, o médico, radialista, jornalista e literato Perilo Galvão Peixoto (1913-2005).

Inaldo de Lyra Neves-Manta

Nunca mais estive com o ilustre psiquiatra, psicanalista, professor e acadêmico Neves-Manta. As últimas lembranças que dele tenho foram de livros seus – seminovos – à venda em um sebo na Praça do Lido, espalhados na calçada da Rua Belfort Roxo, em Copacabana, onde parece que residia, ao final do século passado.

Antônio Austregésilo

“UM ESCRITOR E A SUA OBRA”

“O Sr. Neves-Manta constitui o tipo de homem que vive da inteligência e pela inteligência: médico, novelista, cultor das belas artes, das ciências abstratas e concretas.”

“Adotou a psiquiatria como tendência espiritual e enveredou-se por dois ramos corolários da especialidade – a psicologia e especialmente a psicanálise. Desse fato origina-se a obra literária de Neves-Manta, cujo espírito se plasmou na análise psicológica das personagens de ficção e dos tipos tomados para os estudos críticos.”

“(...) Neves-Manta já possui um público pessoal: está consagrado pela opinião culta, pois é um escritor triunfante.”

– ANTÔNIO AUSTREGÉSILO (1876-1960), julho de 1934.

Texto: FERNANDO MOURA PEIXOTO

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