Antero de Quental
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o Mundo
Botafogo]
“A natureza em mim é conservadora, só o espírito é que é
revolucionário.”
– ANTERO DE QUENTAL (1842-1891)
Poema escrito em 1977, inspirado no ensaio “A Tragédia Comotiva de Antero”, publicado no livro O ESPÍRITO HUMANO – 4ª edição, Livraria
São José, Guanabara, 1961 –, de autoria do eminente médico, literato e
acadêmico Inaldo de Lyra Neves-Manta
(1903-2000), que me presenteou um exemplar – quando eu tinha 21 anos –, de
honrosa dedicatória: “Para a inteligência de Fernando Peixoto,
com um abraço bem apertado. Rio, 01.06.1967”.
E também A ARTE E A NEUROSE
DE JOÃO DO RIO – 4ª edição, Livraria São José, 1960 – sobre Paulo Barreto (1881-1921) – jornalista,
cronista, contista, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras – que
iria influenciar definitivamente o pseudônimo que escolhi em 1977: ‘João Praiano’. Mais uma vez Neves-Manta foi pródigo em elogios: “Para
Fernando Peixoto e a sua curiosidade de jovem psicólogo. Rio, 20.11.1967”.
No ano seguinte, novo brinde literário: A ALMA DO HOMEM – 3ª edição, mesma livraria e ano de publicação do
primeiro – e belos dizeres do escritor: “Para Fernando Peixoto, tão cioso de sua cultura.
Rio, 01.04.1968”.
O “jovem psicólogo”
acabou enveredando pelo Jornalismo, mantendo como livros de cabeceira as obras
do saudoso doutor Inaldo de Lyra
Neves-Manta – que, desde o ano 2000, deve estar psicanalisando o Criador, por certo um manancial
inesgotável – um caso clássico de tripla
personalidade – às suas observações e críticas sempre pertinazes.
Capa de livro
Duas balas ligeiras,
a ideia cristalizando,
tomando forma na mente.
A angústia o dominava,
as dúvidas o possuíam.
Crente e descrente,
sua alma sofria.
Duas balas fagueiras
na metafísica incerteza,
nas crises melancólicas,
nas posturas místicas,
no pessimismo filosófico.
Duas balas brejeiras
na crise existencial,
na dor física e moral,
na neurose do asceta,
na ambivalência do poeta.
---Certa vez, em Paris,
ouviu de mestre Charcot:
“Vous n’avez rien à l’épine;
vous avez une maladie de femme
transportée dans um corps d’homme;
c’est l’hystérisme”. (*)
Duas balas matreiras
poriam fim às aflições,
à loucura iminente,
à dualidade espiritual;
“Por que ser, quando se não é?”
Duas balas certeiras,
duas balas na cabeça.
Atira, não hesita,
estoura os miolos.
Foi-se o pensador genial,
agora descansa, em paz.
Repousa Antero de Quental.
(*) Tradução: “O senhor nada tem na espinha;
o senhor tem uma doença feminina
transportada num corpo masculino;
é o histerismo.”
Sigmund
Freud
Considerado então um distúrbio mental predominantemente feminino,
o ‘histerismo’ incluía-se campo das ‘neuroses’
– ‘histeria de conversão’ e ‘histeria de angústia’ – em meados
do século 19, à época de Jean-Martin
Charcot (1825-1893), cientista, professor e neurologistafrancês, e de seus
discípulos, como o anatomopatologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), neurologista que viria a fundar uma nova
ciência, a Psicanálise. E com ela, a
humanidade nunca mais seria a mesma...
Jean-Martin Charcot
AO DOUTOR NEVES-MANTA
Este trabalho é dedicado ao médico pernambucano I. de L. Neves-Manta (1903-2000) – como gostava de assinar, evitando assim um
trocadilho, “delira”, com o seu
sobrenome –, amigo de meu pai, um baiano
de Salvador, criado em Penedo, Alagoas, o médico, radialista, jornalista e
literato Perilo Galvão Peixoto (1913-2005).
Inaldo de Lyra Neves-Manta
Nunca mais estive com o ilustre psiquiatra, psicanalista,
professor e acadêmico Neves-Manta.
As últimas lembranças que dele tenho foram de livros seus – seminovos – à venda
em um sebo na Praça do Lido, espalhados na calçada da Rua Belfort Roxo, em
Copacabana, onde parece que residia, ao final do século passado.
Antônio Austregésilo
“UM ESCRITOR E A SUA OBRA”
“O Sr. Neves-Manta constitui o tipo de homem que vive da
inteligência e pela inteligência: médico, novelista, cultor das belas artes, das
ciências abstratas e concretas.”
“Adotou a psiquiatria como tendência espiritual e enveredou-se por
dois ramos corolários da especialidade – a psicologia e especialmente a
psicanálise. Desse fato origina-se a obra literária de Neves-Manta, cujo espírito
se plasmou na análise psicológica das personagens de ficção e dos tipos tomados
para os estudos críticos.”
“(...) Neves-Manta já possui um público pessoal: está consagrado
pela opinião culta, pois é um escritor triunfante.”
– ANTÔNIO AUSTREGÉSILO (1876-1960), julho de 1934.
Texto: FERNANDO MOURA PEIXOTO







Sem comentários:
Enviar um comentário