por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1998
ocorreu em França, entre 10 de junho e 12 de julho, e constituiu uma das mais
simbólicas da história recente: marcou o primeiro título mundial da seleção
francesa, a afirmação de Zinedine Zidane como figura nacional e mundial e uma
forte dimensão política, social e identitária em torno da ideia de uma França
multicultural, segundo o lema simbólico da seleção francesa: black-blanc-beur (preto-branco-árabe).
Essa leitura ganhou
enorme força com Zidane, filho de família argelina, a marcar dois gols na final
e a tornar-se ‘herói’ nacional.
A Copa foi a primeira
com 32 seleções, alargando o formato competitivo e permitindo uma grande
diversidade e estreias de seleções como as da Croácia, Jamaica, Japão e África
do Sul. A Jamaica acresceu uma dimensão festiva e mediática muito própria, com
os “Reggae Boyz” a tornarem-se uma das equipas mais carismáticas, e o Japão assinalou uma etapa importante na afirmação do futebol asiático.
O favorito Brasil
entrou na Copa de 1998 como campeão mundial de 1994 e com uma seleção
fortíssima. Tinha nomes como Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Cafu, Carlos Roberto,
Dunga, Taffarel, Leonardo, Denílson e César Sampaio.
A expectativa era
enorme porque Ronaldo Nazário estava em grande forma: tinha velocidade,
potência, técnica e uma capacidade invulgar de desequilibrar. Porém, o grande
acontecimento foi o episódio envolvendo Ronaldo antes da final, o qual terá
tido um problema de saúde, descrito como convulsão ou episódio neurológico. Não
apareceu na primeira ficha de jogo, mas logo depois tornou a constar como
titular.
Houve muitas versões
sobre o assunto, suspeitas, explicações médicas incompletas, especulações sobre
pressão comercial e dúvidas sobre a condição real do jogador.
Na final, Ronaldo
esteve claramente abaixo do normal: pouco explosivo, pouco interventivo, sem a
energia habitual. Essa imagem tornou-se marcante: a figura que devia liderar o
Brasil acabou por simbolizar a vulnerabilidade humana em um momento de maior
pressão.
A final foi disputada
no Stade de France, em Saint-Denis. A França venceu o Brasil por um robusto 3x0.
Foi surpresa o resultado e sobretudo o modo como aconteceu: a equipe parecia
emocionalmente abalada, desconcentrada e incapaz de travar a intensidade, a
organização e a superioridade francesa.
Zinedine Zidane marcou
dois gol de cabeça, ambos após escanteios, ainda na primeira parte. No final, Emmanuel
Petit marcou o terceiro gol, fechando uma vitória histórica.
A imagem simbólica da
final é dupla: de um lado, Zidane elevado a herói nacional; do outro, Ronaldo
apagado, quase ausente, no jogo mais importante da sua carreira até então.
Zidane já era um
grande jogador, mas 1998 transformou-o numa figura quase mítica em França,
embora o seu desempenho não tenha sido linear: foi expulso contra a Arábia
Saudita na fase de grupos por pisar um adversário, foi suspenso, mas no
derradeiro jogo logrou consagrar-se a marcar dois gols inesperados de cabeça,
deixando de ser apenas um grande meio-campista ofensivo para assumir o rosto da
França campeã do mundo. A sua projeção na fachada do Arco do Triunfo, com a
frase “Merci Zizou”, tornou-se uma das imagens simbólicas da vitória.
O título francês feito com jogadores de grande diversidade multicultural, que incluía atletas como Zidane, Thuram, Desailly, Vieira, Henry, Djorkaeff, Karembeu, Lizarazu e outros, representaram a diversidade de origens familiares, regionais e culturais.
A França celebrou por
algum tempo essa ideia claramente política de um país de diversidade, unido e
bem-sucedido, mas poucos anos após contatou-se que o sucesso desportivo não havia
resolvido tensões sociais profundas.
A França beneficiou,
ainda, de outro acontecimento inesperado antes da final: na semifinal contra a Croácia Davor Šuker colocou os croatas na frente do placar, mas então aconteceu o improvável com Lilian
Thuram, defesa direito conhecido pela sua solidez defensiva, que marcou dois gols
para virar o placar, tendo sido os dois únicos gols assinalados pelo atleta na
seleção francesa – tornando lendário o episódio de um defensor discreto que no
momento decisivo disse ‘presente’.
A Croácia, na sua
primeira participação como estado independente, terminou no pódio, em 3º lugar,
dispondo de grandes jogadores como Davor Šuker, Zvonimir Boban, Robert Prodinečki, Robert Jarni e Slaven Bilić. Šuker foi o artilheiro
da Copa e a vitória soberba sobre a Alemanha por 3x0 nas quartas de final foi
um dos resultados mais marcantes da competição.
Os Países Baixos também realizaram uma boa Copa, tendo jogadores como Dennis Bergkamp, Patrick Kluivert, Edgar Davids, Frank de Boer, Ronald de Boer, Seedorf, Overmars e Cocu. O momento mais memorável foi o gol de Dennis Bergkamp contra a Argentina, nas quartas de final, recebendo um passe longo de Frank de Boer, dominando a bola com enorme classe e marcando depois de se livrar de um defensor. Todavia, nas semifinais perdeu para o Brasil nos pênaltis e o seu brilhantismo ficou uma vez mais associado à ideia de talento sem conquista.
A semifinal entre
Brasil e Países Baixos foi um dos grandes jogos da Copa: Ronaldo marcou para os
brasileiros, Kluivert empatou para o neerlandeses e a decisão foi para os
penáltis, na qual Taffarel defendeu pênaltis decisivos e colocou o Brasil na
final – Taffarel mostrou-se um goleiro para os grandes momentos!
Essa vitória reforçou
a imagem de Taffarel como grande goleiro, que já tinha sido importante
em 1994 e voltou a ser decisivo em 1998.
Outro jogo carregado
de simbologia foi o Inglaterra x Argentina, nas oitavas de final. A rivalidade
entre os dois países já vinha de longe, tanto pelo contexto político da Guerra
das Malvinas/Falklands como pelos episódios futebolísticos de 1986, sobretudo a
“Mão de Deus” de Maradona.
Nesse jogo o jovem
Michael Owen marcou um gol extraordinário, arrancando em velocidade e
finalizando com classe, apresentando-se ao mundo. Em contrapartida David
Beckham foi expulso depois de uma reação sobre Diego Simeone e os ingleses
acabaram eliminados nos pênaltis; Beckham tornou-se alvo de enorme crítica em
Inglaterra, quase como bode expiatório nacional, fruto da sua juventude,
imaturidade, pressão mediática e consequente punição pública pelo ato.
A Argentina tinha uma equipa forte: Gabriel Batistuta, Ariel Ortega, Juan Sebastián Verón, Diego Simeone, Claudio López e Zanetti. Batistuta marcou vários gols e confirmou-se como um dos grandes avançados da década, mas, em contrapartida, Ortega teve um momento negativo nas quartas de final ao ser expulso após cabecear Edwin van der Sar, contribuindo para a eliminação argentina e repetindo, de certo modo, o clássico debate sobre grandes talentos condicionados por episódios emocionais.
Também vale lembrar,
ainda na fase de grupos, que a Noruega venceu o Brasil por 2x1, num jogo que
teve impacto simbólico, embora o Brasil já estivesse praticamente apurado. A
Noruega mostrou uma equipa disciplinada, física e eficaz, fazendo recordar que
o Brasil, apesar de favorito, tinha fragilidades.
Por seu lado, a
Dinamarca teve uma campanha muito interessante, com Michael Laudrup e Brian
Laudrup como figuras técnicas. Nas oitavas de final venceu a Nigéria por 4x1,
surpreendendo uma seleção nigeriana que tinha impressionado na fase de grupos e
nas quartas de final, mas a Dinamarca ainda fez um grande jogo contra o Brasil,
perdendo por 3x2.
A Nigéria começou muito bem, vencendo a Espanha por 3x2 num dos jogos mais emocionantes da fase de grupos, mas a derrota pesada contra a Dinamarca nas oitavas de final quebrou essa expectativa. A Nigéria simbolizou, em 1998, a diferença entre potencial versus consistência competitiva.
A Espanha foi uma das
grandes desilusões. Apesar de ter bons jogadores, foi eliminada ainda na fase
de grupos. O jogo contra a Nigéria foi decisivo para a Espanha, que perdeu por
3x2 de virada, reforçando a imagem de uma Espanha frequentemente forte em
nomes, mas incapaz de corresponder nas grandes competições – algo que só
mudaria mais tarde, com a geração campeã de 2008-2012.
Um dos jogos mais
simbólicos foi Irã x América, na fase de grupos, porque o contexto político
entre os dois países dava ao jogo uma carga diplomática evidente. Antes do
encontro, houve gestos de cordialidade entre os jogadores, incluindo troca de
flores e fotografias conjuntas. O Irã venceu por 2x1, naquela que foi a sua
primeira vitória em Copa do Mundo, mas a imagem que ficou, embora meramente
limitada e simbólica, como se comprova pelo atual conflito entre ambos os
países, é que o futebol – quiçá o desporto em geral – pode contribuir para
abrir caminhos de paz.
Nas oitavas de final,
a França teve muitas dificuldades para superar o Paraguai. O jogo foi para
prorrogação em 0x0 e Laurent Blanc marcou o primeiro ‘gol de ouro’ da história
dos Mundiais, segundo a regra que determinava que quem marcasse o gol de
desempate ganhava automaticamente a partida e o jogo terminava. O gol de Blanc
tornou-se um momento-chave do percurso até ao título, mas, curiosamente, Blanc
foi expulso na semifinal contra a Croácia e falhou a final, acrescentou outra
peripécia à narrativa francesa.
Em resumo, a Copa de
1998 caracterizou-se pela vitória da França multicultural “black-blanc-beur”, pelos dois gols de Zidane na final, pelo episódio
neurológico de Ronaldo, pela força francesa e fragilidade emocional
brasileira; pela afirmação da Croácia recém-independente e desilusão espanhola; pelo
brilho de Bergkamp e Owen; pela queda de Beckham e a conquista da ‘Chuteira de
Ouro’ por Davor Šuker; pela
Copa onde o futebol se misturou intensamente com memória, integração,
diplomacia, drama e mito.
FICHA TÉCNICA
França 3x0
Brasil
» Gols: Zidane, aos
27’ e 45+1’, e Emmanuel Petit, aos 90’
» Data: 12 de julho de
1998
» Local: Stade de
France, Saint-Denis (França)
» Público: ~75.000
espectadores
» Árbitro: Said
Belqola (Marrocos)
» Disciplina: cartão
amarelo – Didier Deschamps, Christian Karembeu e Marcel Desailly (França) e
Júnior Baiano (Brasil); cartão vermelho – Marcel Desailly (França)
» França: Fabien
Barthez; Lilian Thuram, Marcel Desailly, Frank Lebeuf e Bixente Lizarazu;
Didier Deschamps, Emmanuel Petit, Christian Karembeu (Alain Boghossian) e
Zinédine Zidane; Youri Djorkaeff (Patrick Vieira) e Stéphane Guivarch
(Christophe Dugarry). Técnico: Aimé Jacquet.
» Brasil: Taffarel;
Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos; César Sampaio (Edmundo), Dunga,
Leonardo (Denílson) e Rivaldo; Bebeto e Ronaldo. Técnico: Mário Zagallo.
Fonte principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.lemonde.fr; www.rsssf.org; www.theguardian.com; X / El Heraldo
Deportes MX.






Sem comentários:
Enviar um comentário