quarta-feira, 24 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1982: a ‘vergonha de Gijón’, o recorde de Dino Zoff e a superação de Paolo Rossi

Cartaz da Copa do Mundo de 1982. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1982, realizada em Espanha entre 13 de junho e 11 de julho,  foi também a primeira fase final com 24 seleções, em vez de 16, e terminou com a vitória da Itália, que derrotou a Alemanha Ocidental por 3x1 na final, no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid.

A Itália teve um início pouco convincente, empatando os três jogos com Polónia, Peru e Camarões e classificando-se apenas pelo saldo de gols. Porém, a equipe de Enzo Bearzot cresceu ao longo da competição e a partir da segunda fase, eliminou a Argentina de Maradona, depois venceu o Brasil num dos jogos mais célebres da história dos Mundiais, afastou a Polónia nas semifinais e superou a Alemanha Ocidental na final, destacando-se a grande figura de Paolo Rossi, que de discreto passou a artilheiro da Copa, com seis golos, e consagrou-se o melhor atleta da competição.

O Brasil de Telê Santana foi das seleções mais admiradas que nunca ganharam um Mundial, dispondo de jogadores como Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Júnior e Cerezo e jogando um futebol ofensivo, técnico e muito fluido.

Botafogo de 1981. Em pé: Gaúcho, Zé Eduardo, Rocha, Serginho, Paulo Sérgio e Perivaldo. Agachados: Édson, Mendonça, Mirandinha, Marcelo e Ziza. Crédito: Ignácio Ferreira | revista Placar – 50 times do Botafogo.

Na primeira fase o Brasil impressionou, derrotando a União Soviética, a Escócia e a Nova Zelândia; na segunda fase venceu a Argentina por 3x1, mas depois baqueou frente à Itália, perdendo por 3x2 com hat-trick de Paolo Rossi.

Paolo Rossi quase não se destacou na fase inicial, mas foi absolutamente decisivo marcando 6 gols nas fases cruciais da competição: fez 3 gols ao Brasil, 2 gols à Polônia nas semifinais e 1 gol à Alemanha Ocidental na final, assumindo-se como figura central da Copa e símbolo da capacidade italiana de resistir, sofrer e vencer.

Em matéria de controvérsia destacou-se  jogo Alemanha Ocidental x Áustria. A Argélia surpreendera a Alemanha Ocidental vencendo por 2x1, mas no último jogo entre alemães e austríacos, ambas as equipes se qualificavam se os alemães vencessem apenas por um ou dois gols.

A Alemanha marcou cedo, o jogo entrou em versão lenta e terminou em 1x0, eliminando a Argélia, ficando o episódio conhecido como a ‘vergonha de Gijón’, onde se disputou a partida, e teve como consequência que as Copas seguintes tivessem os últimos jogos de cada grupo disputados à mesma hora.

Sócrates e Dino Zoff, capitães do Brasil e da Itália trocando galhardetes. Crédito: DR | FIFA.

A Argélia ficou apenas com a honra de ter afirmado mundialmente o futebol africano fora do eixo europeu e sul-americano.

A semifinal entre França e Alemanha Ocidental, em Sevilha, foi um dos grandes jogos da história dos Mundiais. Terminou 3x3 após prolongamento e foi decidido nos pênaltis, com vitória alemã por 5x4.

O momento mais recordado foi o choque violento entre o goleiro alemão Harald Schumacher e o francês Patrick Battiston. Battiston ficou inconsciente e perdeu dentes, mas o árbitro não assinalou falta e o episódio foi dos mais polêmicos da história da competição.

A França, com Michel Platini, Alain Giresse, Jean Tigana e Luis Fernández, chegou a estar vencendo por 3x1 no prolongamento, mas a Alemanha Ocidental recuperou para 3x3 e venceu nos pênaltis.

Nesse ano Diego Maradona já era uma estrela, mas este não foi o seu Mundial de consagração, e a Argentina, campeã em título, não conseguiu repetir o sucesso de 1978.

Paolo Rossi, primeiro gol da final. Crédito: Peter Robinson -  EMPICS | Getty Images.

Na segunda fase os argentinos perderam com a Itália e depois com o Brasil. No jogo contra o Brasil, Maradona foi expulso após uma entrada sobre João Batista e aumentou a sua frustração na prova – mas o México esperava por ele em 1986.

Verificaram-se outros episódios marcantes, entre os quais a Hungria ter estabelecido a maior goleada da história dos Mundiais até hoje, vencendo El Salvador por absurdos 10x1!

Por seu lado, a Irlanda do Norte surpreendeu ao vencer a Espanha por 1x0, sobretudo porque os irlandeses jogaram parte do segundo tempo com dez jogadores.

A Seleção de Camarões foi eliminada sem perder qualquer jogo, registrando três empates na fase de grupos e colocando-se dignamente ao lado da Argélia como Seleção africana competitiva.

Na final, a Itália confirmou a sua transformação ao longo da prova. No 1º tempo Antonio Cabrini falhou um pênalti, mas os italianos dominaram a segunda parte. Paolo Rossi abriu o placar, Marco Tardelli fez o segundo gol e Alessandro Altobelli marcou o terceiro. Paul Breitner reduziu para a Alemanha Ocidental, mas a vitória italiana já estava consolidada.

Dino Zoff, a maior longevidade numa Copa do Mundo à data. Fonte: Facebook.

A imagem mais icônica da final foi o festejo de Marco Tardelli depois de marcar o segundo golo da Itália, lançando-se numa corrida emocionada que se tornou uma das celebrações mais famosas da história do futebol.

Com a conquista do 3º título mundial a Itália igualou o Brasil em número de títulos e o capitão e goleiro Dino Zoff, com 40 anos de idade, tornou-se o jogador mais velho a vencer uma Copa do Mundo.

Em resumo, a Copa do Mundo de 1982 ficou na história por várias razões: a vitória improvável de uma Itália inicialmente discreta; a queda estrondosa do Brasil de Zico, Sócrates e Falcão; a afirmação de Paolo Rossi como figura principal da competição; a injustiça sentida pela Argélia; a polémica de Gijón; a violência não sancionada sobre Battiston; e uma final em que a Itália mostrou eficácia, maturidade competitiva e força emocional.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 3x1 Alemanha Ocidental

» Gols: Paolo Rossi, aos 57’, Marco Tardelli, aos 69’, e Alessandro Altobelli, aos 81’ (Itália); Paul Breitner, aos 83’ (Alemanha Ocidental)

» Data: 11 de julho de 1982

» Local: Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid (Espanha)

» Público: ~90.000 espectadores

» Árbitro: Arnaldo Cézar Coleho (Brasil)

» Disciplina: cartão amarelo – Bruno Cnti e Gabriele Oriali (Itália) e Wolfgang Dremmler, Uli Stielike e Pierre Littbarski

» Itália: Dino Zoff; Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Giuseppe Bergomi, Fulvio Collovati, Antonio Cabrini, Marco Tardelli, Gabriele Oriali, Bruno Conti, Francesco Graziani Alessandro Altobelli e depois Franco Caui) e Paolo Rossi. Técnico: Enzo Bearzot.

» Alemanha Ocidental: Harald Schumacher, Manfred Kaltz, Karl-Heinz Förster, Uli Stielike, Bernd Förster, Hans-Peter Briegel, Paul Breitner, Wolfgang Dremmler, Horst Hrubesch), Pierre Littbarski, Karl-Heinz Rummenigge Hansi Müller e Klaus Fischer. Técnico: Jupp Derwall.

Fontes: cincinnatisoccertalk.com; en.wikipedia.org; imortaisdofutebol.com, maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com; www.ogol.com.br.

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