domingo, 24 de abril de 2016

Gravidez perambulante

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

[Nota do autor: escrito em 1977 – numa época que ainda não se debatia a necessidade de um controle da natalidade para a contenção da explosão demográfica e muito menos o direito feminino à interrupção voluntária da gravidez – este texto recebeu o Prêmio de Edição no ano de 1994 em concurso realizado pela Litteris Editora, e integrou a antologia BEST-SELLER, LITERATURA MAIOR, com 94 outros talentos, “que transbordam ensinamentos moldados em inúmeros gêneros literários”.]

“Meu filho terá de sua mãe o sorriso / meu filho terá de seu pai a sede / terá dos dois a vida / terá dos dois a morte.” – RUBÉN VELA (1928-), ‘Poemas’.

Mulher grávida, que passeia,
a barriga orgulhosa, arrogante.
Já pensaste no destino
que terá teu futuro filho?

Mulher grávida, que passeia,
porventura perguntaste
se ele quer a vida
que pretendes lhe dar?

Mulher grávida, que passeia,
olhaste bem para o mundo
só de guerras, ditaduras,
de miséria e muita fome?

Mulher grávida, que passeia,
refletiste na gravidade
do teu gesto, do teu ato?

Mulher grávida, que passeia,
agora é muito tarde.
Corre e abre as pernas,
despeja na luta
teu caro rebento.

BEST-SELLER, LITERATURA MAIOR

 “A partir do título a obra já chega por completa ao leitor, provando a curiosidade, a vontade maior de ler cada linha o mais rápido possível. Fernando Peixoto teve grande preocupação com cada palavra, elas não estão soltas, perdidas. Estão unidas por um forte laço de cuidado, mostrando conteúdo em sua carga conotativa. Uma belíssima obra.” – ARTUR RODRIGUES e ANTONIO CARLOS KRONEMBERG, Litteris Editora, Rio de Janeiro, 1994.

Texto e imagem: FERNANDO MOURA PEIXOTO 

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