quinta-feira, 28 de abril de 2016

A praia vista por um vendedor ambulante (I parte)

Comemoração ‘Um século de Rio de Janeiro à beira mar'

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

“Desconfio de quem, podendo, não vai à praia.” – GILBERTO AMADO (1887-1969)

DOM JOÃO VI, O PRECURSOR NO CAJU

Em sua residência campestre da Fazenda de Santa Cruz – entre Barra de Guaratiba e Vassouras –, local de veraneio da Família Real, lá por volta de 1810, D. João VI (1767-1826) fora mordido por um carrapato na perna. Em decorrência, estava com um problema de pele inflamada.

Como tratamento, seu médico particular lhe prescrevera o ‘banho salgado’ em uma praia, coisa a que ninguém ia, na época, salvo para esporádicas caminhadas, e vestidos. As crianças também se aventuravam a brincar na areia, por peraltice, sem nunca chegar perto da água.

O monarca português, muito a contragosto – pois tinha medo do mar e de siris –, era içado rapidamente na água em uma barrica tapada no fundo e perfurada na lateral e, sem o saber, dava início, nas praias do Caju, Paquetá e, eventualmente, Botafogo, a um hábito que permanece até aos nossos dias.

DOM PEDRO II E AS BALEIAS EM COPACABANA

Arpoavam-se muitas baleias ao largo do Rio de Janeiro e na Baía da Guanabara nos séculos 16 e 17. No ano de 1858 espalhara-se na cidade um boato de que duas baleias imensas estavam encalhadas na Praia de Copacabana. Atraiu-se uma multidão ao local, ermo e um imenso areal. O imperador Dom Pedro II (1825-1891) se dispôs também a empreender o percurso tortuoso com sua família para admirar o espetáculo.

Para se alcançar a Praia de Copacabana, até meados do século 19, tinha-se que subir o Morro do Leme (como hoje se designa), ou flanquear a Lagoa Rodrigo de Freitas, desbravando ainda um estreito entre o Cantagalo e o Morro dos Cabritos. Era um considerável esforço e demandava tempo.

Mas que frustração! Nem um sinal dos portentosos cetáceos, que não passavam de balelas. No entanto, aquela praia agreste, ensolarada, plena de conchas, pitangueiras, cajueiros, jambeiros e maçarandubeiras, e de uma extraordinária beleza, passou a ser incluída no mapa de piqueniques e excursões à Igrejinha – região atual denominada Posto Seis. Mas curtir um mergulho naquele mar verde, azul-anil e ondulado, que nada – só com bastante cuidado e na primeira década do século 20.

Edital de 1913

SERÁ MESMO QUE AMANHÃ VAI DAR PRAIA?

Vieram depois as ‘casas de banho’, os balneários e toda uma evolução de costumes. Em 1917, o prefeito Amaro Cavalcanti (1849-1927) regulamentou o banho de mar no então Distrito Federal, no Leme e em Copacabana. De prática medicinal, mais de um século após, a praia iria virar lazer e paixão de um povo.

Carioca que se preza, hoje não passa sem praia, mesmo morando bem longe dela. E o praiano autêntico costuma se perguntar à noite, olhando para o céu, antes de dormir, se no dia seguinte fará bom tempo para se pegar uma praia.

Baseado nesta inquietante indagação, o Museu da Imagem e do Som, MIS – na Praça Rui Barbosa nº 1, no centro do Rio – promoveu, de 23 de janeiro a 28 de fevereiro de 1986, a interessante exposição ‘Será Que Vai Dar Praia?’, que narra essa epopeia marinha – ‘um século de Rio de Janeiro à beira-mar’. A praia de antigamente em nada lembra a de hoje.

O evento foi organizado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, Fundação de Arte do Rio de Janeiro – FUNARJ, Secretaria de Estado de Ciência e Cultura, e pela Coordenação de Museus. Cecília Leal de Oliveira, programadora visual, e Tereza de Biasi, museóloga, desenvolveram a ideia. A investigação iconográfica ficou a cargo de Elizabeth Formaggini. Surgiram então belos painéis: primeiros banhos de mar, evolução dos trajes praianos, musas do verão, biquínis, tangas e topless, poluição e farofeiros.

Participei da pesquisa preparatória da mostra, fornecendo algumas fotos antigas, contando a história de esportes de praia e do sanduíche natural. E apresentando um longo, curioso e humano relato de um vendedor ambulante de refrescos, daqueles que batalham arduamente saciando nossa sede enquanto nos divertimos na praia.

Retomei o texto original, aparando arestas, dividindo, ampliando e acrescentando notas explicativas. E mais atualizações aconteceram em 2016.

Francisco Alves Monteiro, vendedor ambulante depoente

FRANCISCO ALVES MONTEIRO, UM AMBULANTE NA PRAIA

Antes de iniciar a leitura de ‘A Praia Vista Por Um Vendedor Ambulante’ faz-se necessário conhecer um pouco da vida do depoente Francisco Alves Monteiro, o ‘Chico’, e também um breve histórico das vendas praianas.

Nascido em 20 de março de 1939, no bairro das Graças, no Recife, o pernambucano Francisco emigrou para o Rio de Janeiro e aqui trabalhou vinte anos ininterruptos, de 1964 a 1984, vendendo mate e limão na Praia de Ipanema.

Solteiro, estudou somente até ao 3º Ano Ginasial (hoje o 7º ano do Ensino Fundamental), mas compensava no dia a dia a pouca instrução com muita intuição e vivência. É de sua autoria esta frase lapidar, que permanece atualíssima: "Luta de policiais com bandidos é briga de irmãos desunidos”.

Francisco adorava praia e exerceu seu duro ofício, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, quando os vendedores de refrescos imperavam, absolutos, na orla marítima, sem sofrerem a concorrência de barraquinhas fixas de cervejas e refrigerantes, como ocorre hoje em dia.

Grafite de vendedor ambulante em Copacabana

Nos anos 1960 não havia cerveja nas praias. Sorvetes e refrigerantes, somente nas carrocinhas estacionadas nas calçadas. Então, vestindo impecáveis uniformes de cores vivas, portando bonés ou exóticos chapéus de palha à guisa de proteção solar, os vendedores de mate e limão, garbosos, enfeitavam as areias, oferecendo um produto saboroso, concentrado, preparado no capricho, por especialistas, nos depósitos.

Os vendedores tornavam-se amigos das turmas de praia, participando até das peladas e do frescobol – embora essas atividades lhes fossem vedadas pelos patrões. E, por vezes, acabavam na casa de algum bacana, almoçando ou lanchando lautamente. Ganhavam roupas e eram considerados por muitos como se fossem pessoas da família.

Mas as coisas mudaram bastante. As vendas de mate e limão foram escasseando progressivamente na época.  Em consequência, o produto ofertado apresentava-se aguado e sem sabor. E os ambulantes, em menor número, tinham que disputar o mercado com os barraqueiros que, embora cobrando caro, davam toda espécie de vantagens aos banhistas: refrigerantes, cervejas, batidas – tudo bem geladinho –, sanduíches e frutas frescas. Além de alugarem cadeiras, guarda-sóis e oferecerem outras mordomias – o que ocorre até hoje.

Leblon e Ipanema – Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (1942)

Conheci Francisco Alves Monteiro em 1966, em Ipanema, e fui sempre seu fiel freguês. Tomei-lhe o depoimento em dezembro de 1985, quando se desiludira com a situação e abandonara, temporariamente, a profissão de vendedor praiano, tornando-se jornaleiro. Trabalhou – em épocas diferentes, claro – em quatro bancas. Duas em Copacabana, uma na Rua Duvivier e outra na Rua Hilário de Gouveia, 132. E outras duas em Ipanema – na Praça General Osório, e depois na Rua Visconde de Pirajá, 422.

Atendeu a pessoas importantes, como o técnico de vôlei Jorge ‘Jorjão’ Barros (1948-), a atriz Patrícia Pillar (1964-), o cantor José Ricardo (1939-1999), o modelo e ator Pedrinho Aguinaga (1950-) e os poetas Ferreira Gullar (1930-) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Certa vez, na banca-chefe da Praça General Osório, Carlos Drummond de Andrade – a quem reservava coleções – lhe deu um livro de presente, dizendo o seguinte: “Meu filho, você é um rapaz de grande sensibilidade. Pena que não tenha estudado”.

E daqui por diante é o Francisco quem narra. Eu procedi a alguns comentários que julguei necessários ou interessantes.

Ipanema (1964)

PRAIA, AMBIENTE DE LAZER E COMÉRCIO

“Nos finais de semana as praias cariocas tornam-se um ambiente de lazer para aqueles que passaram uma semana muito agitada. Procura-se na praia esquecer um pouco o cotidiano. E ali saborear uma cerveja, um limão, um mate gelado. Bater papo com os amigos, apreciar as lindas garotas em seus trajes provocantes. E praticar um esporte qualquer. O carioca jamais viveria sem praia.”

“Mas a praia não é só ambiente de lazer. Lá também frequentam pessoas que vão com outra finalidade. Enquanto uns gozam das delícias daquela maravilha, outros derramam o seu suor com o objetivo de aumentar o seu ganha-pão. O comércio nas praias é bastante acentuado e também muito disputado, e com uma boa dose de injustiça, pois, ao invés de predominarem os ambulantes legalizados, quem predomina mesmo são os não legalizados. O comércio nas praias atingiu o exagero, tamanha é a exploração existente.”

[Continua na II parte]

Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO

1 comentário:

Carlos Bill disse...

Extraordinário o conteúdo, de imagens e textual, prezado Fernando Peixoto. O mural e a foto do vendedor tradicional de mate e a alegre dúvida do carioca, que dura até hoje sem problemas, de 'será que amanhã dá praia, vai fazer sol'? confesso que ajudam (esses "lembretes e explanações") a cada um de nós a nos sentirmos de novo mais joviais e alegres, como nas décadas de 60 70 80...

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