Zurica na década de 1940
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o Mundo
Botafogo]
[Nota do autor: fielmente baseado em depoimento
de Zurica Galvão Peixoto (1914-2005),
alagoana de Penedo, este texto recebeu ‘Prêmio
de Edição’ em concurso promovido pela Litteris
Editora, integrando a antologia ‘Best-Seller,
O Melhor da Literatura’, editada em 1996; as fotos no Posto Seis, na Praia
de Copacabana, foram tiradas em 1939/40 e pertencem ao meu arquivo FMP.]
“A saudade é a memória do coração.” – COELHO NETO (1864-1934)
Final dos anos 1980. Com grande pesar, minha tia, já
septuagenária, recebeu a triste notícia do desaparecimento de seu estimado
amigo Narbal, bancário aposentado, vítima da violência urbana. Mais um crime
bárbaro e inexplicável, como tantos outros que impunemente ocorrem neste
inseguro e perigoso Rio de Janeiro de hoje.
Alguém leu no jornal o relato sobre o fúnebre acontecimento e o
transmitiu pelo telefone, causando-lhe verdadeiro choque. Naquele mesmo
instante rememorou as décadas passadas da antiga amizade.
Posto 6 (1939)
Era um relacionamento de longa data, lá por volta de 1938/1939.
Ela morava na Rua Bulhões de Carvalho, na casa nº 17, e ele, ao lado, na de
número 19. Conheceram-se na vizinhança, daí surgindo a amistosidade entre as
duas famílias. E uma assídua e fraternal convivência.
Desfrutaram alegres dias de mocidade em flor... Brincadeiras nas
praias de Copacabana e do Arpoador... Nadando, pulando, correndo feito
crianças, jogando peteca ou ‘medicine-ball’.
Carinhosas evocações de uma época boa. Vida mais tranquila, uma
amizade pura, sadia e sincera. As pequenas aventuras, as idas muitas vezes
clandestinas ao Cassino Atlântico, no Posto Seis, onde entravam como ‘penetras’
para assistir aos espetáculos musicais e bailar na pista do salão. Era
engraçado quando ele, preocupado, dizia: “Só sei dançar samba e foxtrote, o que farei
se a orquestra tocar um tango argentino?”. E ela, sorridente,
respondia: “Dá-se um jeito, eu guiarei e ninguém notará”.
Belos tempos fagueiros que não retornarão jamais...
A irmã de meu pai se recorda do físico esguio e louro de Narbal.
Simpático, gentil, descendente de alemães de Santa Catarina. Culto, fino,
educado e respeitoso. Um rapaz exemplar.
Posto 6 (1939)
Depois, o cotidiano implacável e cheio de surpresas os distanciou.
Perderam entes queridos em ambos os lares e se mudaram para locais diferentes
em Copacabana. No entanto, conservaram sempre aquela velha afeição, embora
raramente se encontrassem. Vez por outra mantinham contato telefônico. Quando
das viagens dele ao exterior, nunca se esqueceu de lhe trazer uma lembrança, um
‘recuerdo’ dos lugares em que
andara.
Agora que Narbal Lehmkul partiu para não mais voltar, todas essas
reminiscências vêm ao pensamento. Na última oportunidade em que ouviu sua voz
ao telefone, ele comunicava estar morando num belo apartamento em Jacarepaguá.
Prazerosamente queria mostrar-lhe a nova residência. Sucederam-se alguns meses,
não tendo a chance de ir até lá. E não soube de posteriores notícias suas.
Lamentavelmente, naquele dia foi um terrível golpe inteirar-se que
havia perdido o bom amigo de tantos anos. Uma tristeza avassaladora oprimiu seu
coraçãozinho idoso e cansado. Sentida lágrima desceu-lhe pela face,
transparecendo a dor sofrida e uma saudade que perdurará eternamente.
“Descanse em paz, amigo Narbal. Que Deus o acolha de braços
abertos em Sua Mansão Celestial.”
Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)



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