[Paulo Marcelo Sampaio é o autor destas crônicas,
interpretando os protagonistas pelos quais assina; as crônicas publicadas no
Mundo Botafogo são uma gentileza do autor.]
por
OTAVIO SÉRGIO DE MORAES
01.12.2014
O
ambiente era tenso. Só não havia silêncio por conta das ladainhas do Carlito
Rocha. Católico daqueles que comungam às seis da matina – nós o chamávamos de
papa-hóstias na surdina, claro – só ele acreditava no milagre. Lá embaixo, o
clube vivera, quatro dias antes, momentos de ebulição, com a eleição do novo
presidente. Era uma espécie de Juca Mello Machado – a esperança depois de
tantos desmandos e maracutaias.
Mesmo
depois de parar de jogar, nunca deixei de frequentar a sede da avenida
Vesceslau Braz. Há os que dizem que, quanto mais você conhece o clube por
dentro, os meandros do poder, acaba se decepcionando. Comigo sempre foi
diferente. Filho de poeta – pra quem não sabe, sou filho de Eneida – aprendi a
gostar dos sonhos. Tenho um amigo aqui, com quem converso bastante, o Ivan
Lessa, que acha isso uma bobagem. Pra ele os bons tempos no Brasil pararam nos
anos 50. Carrego em mim também, assim como o Ivan, o micróbio do saudosismo.
Embora os tempos são sejam propícios, estou um pouco feliz. Uns malucos, eu
soube, entre eles o Serginho Wechsel, o João Almeida e o Cacá Azeredo, o neto
do doutor Paulo que conheci garoto abusado, querem a volta do estádio de
General Severiano. Mesmo que a dívida beirando o bilhão de reais, eles já
pensam na campanha do cimento. Afinal foi assim que nasceu o velho estádio, em
1939.
Eu
dizia lá em cima que só o Carlito acreditava. Sê confiante, repetia para si
mesmo, como uma reza. A esperança é a última que morre, ensina o ditado tão
batido, continuava o velho, num rosário de crenças. Mas esse sopro durou pouco.
Até mais ou menos os quarenta minutos. Foi ali que Andreazzi – isso é nome de
ministro, não de jogador! – e Dankler bateram cabeça. Pela leitura labial era
‘vá se foder pra cá’, ‘vá tomar no cu pra lá’. E a desafinação continuou, digna
das buzinadas do Chacrinha e das críticas ácidas de Aracy de Almeida nos show
de calouros do Silvio Santos.
Vivíamos
ali o inferno, mas devo confessar: eu sorri. Heleno, a três passos, jogava
sinuca, com uma indefectível cigarrilha no canto da boca. Ele me observava. E
eu não notara. Meu companheiro dos anos 40 não tinha mais paciência para ver
futebol. Nunca tivera, corrijo. “Heleno, Heleno! Vem cá!”, apontei pro monitor.
“Tá rindo de quê, Otávio, se estamos fodidos?” Os caras do próprio time estão
se xingando. Parece que estão com o diabo no corpo, ou melhor, com o Heleno no
corpo. Capeta é caralho, respondeu, me mostrando os bagos. Fingi que não vi.
“Ô
Macaé, ô Macaé, tira o Biriba do canil. Birruma, vá pegar as camisas de mangas
compridas. Ô Arlindo, dá ré no ônibus”, ordenava Carlito, delirando, como se
estivesse a poucas horas de uma partida. Senti a dois metros de mim uma tosse
molhada, seguida de falta de ar. Acompanhada de fumaça, muita fumaça. Um
enfizema estava próximo. “Rapaz, me disse o Saldanha, ainda tossindo “nem dez
nossas senhoras da Conceição fariam milagre. Esse time tem vontade, mas é cada
um por si!”
Aqui
de cima todos nós – sempre bem informados por Salim Simão, Sandro Moreyra,
Oldemário Touguinhó e Maurício Torres – sabíamos da situação de penúria fora de
campo. Adhemar Bebiano, magnata dos tecidos, pensava numa maneira de costurar
alianças. Para isso contava com a experiência de Guilherme Arinos, tão íntimo
das mumunhas de quem decidia. Como se conectar com o pessoal do andar de baixo?
Não fazíamos a menor ideia. Até que chegou Oswaldo Sargentelli, sempre ao lado
de Carlos Imperial, outrora um galanteador das mulatas do Oba Oba. “O jeito,
doutor Bebiano, é recorrer a tudo. Sem preconceitos. Nessa hora, pra salvar o
Botafogo, católicos, judeus, protestantes, harekrishnas, umbandistas,
macumbeiros, budistas, espíritas, testemunhas de Jeová, todos têm que se unir”.
Antes
mesmo de acabar seu discurso inflamada, Sargentelli foi avisado do pior. O
Botafogo estava, doze anos depois, de volta à segunda divisão. Emil Pinheiro
chegou ao salão, acompanhado de Althemar Dutra de Castilhos, o Teté. Doze é o
contrário de vinte e um. Quem sabe não é um sinal?, perguntou o bicheiro.
Escutei, pertinho de mim, uma fungada. E um cutucão no meu ombro. “Vamos sair
dessa merda daqui”, me disse Heleno. “Amigo, tenho que pegar meu Chevrolet e
ajudar meu Botafogo. Ele precisa de mim”. Depois dessa declaração comovente,
completei. “Precisa de nós, assim na terra como no céu”. Heleno me abraçou, me
enforcando, como sempre fazia. E foi olhar uma estrela, que teimava em brilhar.
Solitária.
Fonte: http://arquibabotafogo.com

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