quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Um Recado do Céu

[Paulo Marcelo Sampaio é o autor destas crônicas, interpretando os protagonistas pelos quais assina; as crônicas publicadas no Mundo Botafogo são uma gentileza do autor.]

por OTAVIO SÉRGIO DE MORAES
01.12.2014

O ambiente era tenso. Só não havia silêncio por conta das ladainhas do Carlito Rocha. Católico daqueles que comungam às seis da matina – nós o chamávamos de papa-hóstias na surdina, claro – só ele acreditava no milagre. Lá embaixo, o clube vivera, quatro dias antes, momentos de ebulição, com a eleição do novo presidente. Era uma espécie de Juca Mello Machado – a esperança depois de tantos desmandos e maracutaias.

Mesmo depois de parar de jogar, nunca deixei de frequentar a sede da avenida Vesceslau Braz. Há os que dizem que, quanto mais você conhece o clube por dentro, os meandros do poder, acaba se decepcionando. Comigo sempre foi diferente. Filho de poeta – pra quem não sabe, sou filho de Eneida – aprendi a gostar dos sonhos. Tenho um amigo aqui, com quem converso bastante, o Ivan Lessa, que acha isso uma bobagem. Pra ele os bons tempos no Brasil pararam nos anos 50. Carrego em mim também, assim como o Ivan, o micróbio do saudosismo. Embora os tempos são sejam propícios, estou um pouco feliz. Uns malucos, eu soube, entre eles o Serginho Wechsel, o João Almeida e o Cacá Azeredo, o neto do doutor Paulo que conheci garoto abusado, querem a volta do estádio de General Severiano. Mesmo que a dívida beirando o bilhão de reais, eles já pensam na campanha do cimento. Afinal foi assim que nasceu o velho estádio, em 1939.

Eu dizia lá em cima que só o Carlito acreditava. Sê confiante, repetia para si mesmo, como uma reza. A esperança é a última que morre, ensina o ditado tão batido, continuava o velho, num rosário de crenças. Mas esse sopro durou pouco. Até mais ou menos os quarenta minutos. Foi ali que Andreazzi – isso é nome de ministro, não de jogador! – e Dankler bateram cabeça. Pela leitura labial era ‘vá se foder pra cá’, ‘vá tomar no cu pra lá’. E a desafinação continuou, digna das buzinadas do Chacrinha e das críticas ácidas de Aracy de Almeida nos show de calouros do Silvio Santos.

Vivíamos ali o inferno, mas devo confessar: eu sorri. Heleno, a três passos, jogava sinuca, com uma indefectível cigarrilha no canto da boca. Ele me observava. E eu não notara. Meu companheiro dos anos 40 não tinha mais paciência para ver futebol. Nunca tivera, corrijo. “Heleno, Heleno! Vem cá!”, apontei pro monitor. “Tá rindo de quê, Otávio, se estamos fodidos?” Os caras do próprio time estão se xingando. Parece que estão com o diabo no corpo, ou melhor, com o Heleno no corpo. Capeta é caralho, respondeu, me mostrando os bagos. Fingi que não vi.

“Ô Macaé, ô Macaé, tira o Biriba do canil. Birruma, vá pegar as camisas de mangas compridas. Ô Arlindo, dá ré no ônibus”, ordenava Carlito, delirando, como se estivesse a poucas horas de uma partida. Senti a dois metros de mim uma tosse molhada, seguida de falta de ar. Acompanhada de fumaça, muita fumaça. Um enfizema estava próximo. “Rapaz, me disse o Saldanha, ainda tossindo “nem dez nossas senhoras da Conceição fariam milagre. Esse time tem vontade, mas é cada um por si!”

Aqui de cima todos nós – sempre bem informados por Salim Simão, Sandro Moreyra, Oldemário Touguinhó e Maurício Torres – sabíamos da situação de penúria fora de campo. Adhemar Bebiano, magnata dos tecidos, pensava numa maneira de costurar alianças. Para isso contava com a experiência de Guilherme Arinos, tão íntimo das mumunhas de quem decidia. Como se conectar com o pessoal do andar de baixo? Não fazíamos a menor ideia. Até que chegou Oswaldo Sargentelli, sempre ao lado de Carlos Imperial, outrora um galanteador das mulatas do Oba Oba. “O jeito, doutor Bebiano, é recorrer a tudo. Sem preconceitos. Nessa hora, pra salvar o Botafogo, católicos, judeus, protestantes, harekrishnas, umbandistas, macumbeiros, budistas, espíritas, testemunhas de Jeová, todos têm que se unir”.

Antes mesmo de acabar seu discurso inflamada, Sargentelli foi avisado do pior. O Botafogo estava, doze anos depois, de volta à segunda divisão. Emil Pinheiro chegou ao salão, acompanhado de Althemar Dutra de Castilhos, o Teté. Doze é o contrário de vinte e um. Quem sabe não é um sinal?, perguntou o bicheiro. Escutei, pertinho de mim, uma fungada. E um cutucão no meu ombro. “Vamos sair dessa merda daqui”, me disse Heleno. “Amigo, tenho que pegar meu Chevrolet e ajudar meu Botafogo. Ele precisa de mim”. Depois dessa declaração comovente, completei. “Precisa de nós, assim na terra como no céu”. Heleno me abraçou, me enforcando, como sempre fazia. E foi olhar uma estrela, que teimava em brilhar. Solitária.

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