Comemoração ‘Um século de Rio
de Janeiro à beira mar'
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o Mundo
Botafogo]
“Desconfio de quem, podendo, não vai à praia.” –
GILBERTO AMADO (1887-1969)
DOM JOÃO VI, O PRECURSOR NO CAJU
Em sua residência campestre da Fazenda de Santa Cruz – entre Barra
de Guaratiba e Vassouras –, local de veraneio da Família Real, lá por volta de
1810, D. João VI (1767-1826) fora
mordido por um carrapato na perna. Em decorrência, estava com um problema de
pele inflamada.
Como tratamento, seu médico particular lhe prescrevera o ‘banho salgado’ em uma praia, coisa a
que ninguém ia, na época, salvo para esporádicas caminhadas, e vestidos. As
crianças também se aventuravam a brincar na areia, por peraltice, sem nunca
chegar perto da água.
O monarca português, muito a contragosto – pois tinha medo do mar
e de siris –, era içado rapidamente na água em uma barrica tapada no fundo e
perfurada na lateral e, sem o saber, dava início, nas praias do Caju, Paquetá
e, eventualmente, Botafogo, a um hábito que permanece até aos nossos dias.
DOM PEDRO II E AS BALEIAS EM
COPACABANA
Arpoavam-se muitas baleias ao largo do Rio de Janeiro e na Baía da
Guanabara nos séculos 16 e 17. No ano de 1858
espalhara-se na cidade um boato de que duas baleias imensas estavam encalhadas
na Praia de Copacabana. Atraiu-se uma multidão ao local, ermo e um imenso
areal. O imperador Dom Pedro II (1825-1891)
se dispôs também a empreender o percurso tortuoso com sua família para admirar
o espetáculo.
Para se alcançar a Praia de Copacabana, até meados do século 19,
tinha-se que subir o Morro do Leme (como hoje se designa), ou flanquear a Lagoa
Rodrigo de Freitas, desbravando ainda um estreito entre o Cantagalo e o Morro
dos Cabritos. Era um considerável esforço e demandava tempo.
Mas que frustração! Nem um sinal dos portentosos cetáceos, que não
passavam de balelas. No entanto, aquela praia agreste, ensolarada, plena de
conchas, pitangueiras, cajueiros, jambeiros e maçarandubeiras, e de uma
extraordinária beleza, passou a ser incluída no mapa de piqueniques e excursões
à Igrejinha – região atual denominada Posto Seis. Mas curtir um mergulho
naquele mar verde, azul-anil e ondulado, que nada – só com bastante cuidado e
na primeira década do século 20.
Edital de 1913
SERÁ MESMO QUE AMANHÃ VAI DAR
PRAIA?
Vieram depois as ‘casas de
banho’, os balneários e toda uma evolução de costumes. Em 1917, o prefeito Amaro Cavalcanti (1849-1927)
regulamentou o banho de mar no então Distrito Federal, no Leme e em Copacabana.
De prática medicinal, mais de um século após, a praia iria virar lazer e paixão
de um povo.
Carioca que se preza, hoje não passa sem praia, mesmo morando bem
longe dela. E o praiano autêntico costuma se perguntar à noite, olhando para o
céu, antes de dormir, se no dia seguinte fará bom tempo para se pegar uma praia.
Baseado nesta inquietante indagação, o Museu da Imagem e do Som, MIS – na Praça Rui Barbosa nº 1, no
centro do Rio – promoveu, de 23 de janeiro a 28 de fevereiro de 1986, a
interessante exposição ‘Será Que Vai Dar Praia?’, que narra essa epopeia marinha – ‘um século de Rio de Janeiro à beira-mar’.
A praia de antigamente em nada lembra a de hoje.
O evento foi organizado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro,
Fundação de Arte do Rio de Janeiro – FUNARJ, Secretaria de Estado de Ciência e
Cultura, e pela Coordenação de Museus. Cecília
Leal de Oliveira, programadora visual, e Tereza de Biasi, museóloga, desenvolveram a ideia. A investigação
iconográfica ficou a cargo de Elizabeth
Formaggini. Surgiram então belos painéis: primeiros banhos de mar, evolução
dos trajes praianos, musas do verão, biquínis, tangas e topless, poluição e
farofeiros.
Participei da pesquisa preparatória da mostra, fornecendo algumas
fotos antigas, contando a história de esportes de praia e do sanduíche natural.
E apresentando um longo, curioso e humano relato de um vendedor ambulante de
refrescos, daqueles que batalham arduamente saciando nossa sede enquanto nos
divertimos na praia.
Retomei o texto original, aparando arestas, dividindo, ampliando e
acrescentando notas explicativas. E mais atualizações aconteceram em 2016.
Francisco Alves Monteiro,
vendedor ambulante depoente
FRANCISCO ALVES MONTEIRO, UM
AMBULANTE NA PRAIA
Antes de iniciar a leitura de ‘A
Praia Vista Por Um Vendedor Ambulante’ faz-se necessário conhecer um pouco
da vida do depoente Francisco Alves Monteiro,
o ‘Chico’, e também um breve
histórico das vendas praianas.
Nascido em 20 de março de 1939, no bairro das Graças, no Recife, o
pernambucano Francisco emigrou para o Rio de Janeiro e aqui trabalhou vinte
anos ininterruptos, de 1964 a 1984, vendendo mate e limão na Praia de Ipanema.
Solteiro, estudou somente até ao 3º Ano Ginasial (hoje o 7º ano do
Ensino Fundamental), mas compensava no dia a dia a pouca instrução com muita
intuição e vivência. É de sua autoria esta frase lapidar, que permanece
atualíssima: "Luta de policiais com bandidos é briga de irmãos desunidos”.
Francisco adorava praia e exerceu seu duro ofício, principalmente
nas décadas de 1960 e 1970, quando os vendedores de refrescos imperavam,
absolutos, na orla marítima, sem sofrerem a concorrência de barraquinhas fixas
de cervejas e refrigerantes, como ocorre hoje em dia.
Grafite de vendedor ambulante em
Copacabana
Nos anos 1960 não havia cerveja nas praias. Sorvetes e
refrigerantes, somente nas carrocinhas estacionadas nas calçadas. Então,
vestindo impecáveis uniformes de cores vivas, portando bonés ou exóticos
chapéus de palha à guisa de proteção solar, os vendedores de mate e limão,
garbosos, enfeitavam as areias, oferecendo um produto saboroso, concentrado,
preparado no capricho, por especialistas, nos depósitos.
Os vendedores tornavam-se amigos das turmas de praia, participando
até das peladas e do frescobol – embora essas atividades lhes fossem vedadas pelos
patrões. E, por vezes, acabavam na casa de algum bacana, almoçando ou lanchando
lautamente. Ganhavam roupas e eram considerados por muitos como se fossem
pessoas da família.
Mas as coisas mudaram bastante. As vendas de mate e limão foram escasseando
progressivamente na época. Em
consequência, o produto ofertado apresentava-se aguado e sem sabor. E os
ambulantes, em menor número, tinham que disputar o mercado com os barraqueiros
que, embora cobrando caro, davam toda espécie de vantagens aos banhistas:
refrigerantes, cervejas, batidas – tudo bem geladinho –, sanduíches e frutas
frescas. Além de alugarem cadeiras, guarda-sóis e oferecerem outras mordomias –
o que ocorre até hoje.
Leblon e Ipanema – Arquivo
Geral da Cidade do Rio de Janeiro (1942)
Conheci Francisco Alves
Monteiro em 1966, em Ipanema, e fui sempre seu fiel freguês. Tomei-lhe o
depoimento em dezembro de 1985, quando se desiludira com a situação e
abandonara, temporariamente, a profissão de vendedor praiano, tornando-se
jornaleiro. Trabalhou – em épocas diferentes, claro – em quatro bancas. Duas em
Copacabana, uma na Rua Duvivier e outra na Rua Hilário de Gouveia, 132. E
outras duas em Ipanema – na Praça General Osório, e depois na Rua Visconde de
Pirajá, 422.
Atendeu a pessoas importantes, como o técnico de vôlei Jorge ‘Jorjão’ Barros (1948-), a atriz Patrícia Pillar (1964-), o cantor José Ricardo (1939-1999), o modelo e
ator Pedrinho Aguinaga (1950-) e os
poetas Ferreira Gullar (1930-) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
Certa vez, na banca-chefe da Praça General Osório, Carlos Drummond de Andrade – a quem reservava coleções – lhe deu um
livro de presente, dizendo o seguinte: “Meu filho, você é um rapaz de grande
sensibilidade. Pena que não tenha estudado”.
E daqui por diante é o Francisco quem narra. Eu procedi a alguns
comentários que julguei necessários ou interessantes.
Ipanema (1964)
PRAIA, AMBIENTE DE LAZER E
COMÉRCIO
“Nos finais de semana as praias cariocas tornam-se um ambiente de
lazer para aqueles que passaram uma semana muito agitada. Procura-se na praia
esquecer um pouco o cotidiano. E ali saborear uma cerveja, um limão, um mate
gelado. Bater papo com os amigos, apreciar as lindas garotas em seus trajes
provocantes. E praticar um esporte qualquer. O carioca jamais viveria sem
praia.”
“Mas a praia não é só ambiente de lazer. Lá também frequentam
pessoas que vão com outra finalidade. Enquanto uns gozam das delícias daquela
maravilha, outros derramam o seu suor com o objetivo de aumentar o seu
ganha-pão. O comércio nas praias é bastante acentuado e também muito disputado,
e com uma boa dose de injustiça, pois, ao invés de predominarem os ambulantes
legalizados, quem predomina mesmo são os não legalizados. O comércio nas praias
atingiu o exagero, tamanha é a exploração existente.”
[Continua na II parte]
Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO






1 comentário:
Extraordinário o conteúdo, de imagens e textual, prezado Fernando Peixoto. O mural e a foto do vendedor tradicional de mate e a alegre dúvida do carioca, que dura até hoje sem problemas, de 'será que amanhã dá praia, vai fazer sol'? confesso que ajudam (esses "lembretes e explanações") a cada um de nós a nos sentirmos de novo mais joviais e alegres, como nas décadas de 60 70 80...
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