quinta-feira, 21 de abril de 2016

Altamiro Braga (1898-1999), o introdutor do vôlei na praia

Altamiro da Fonseca Braga

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o Mundo Botafogo]

“Cada pessoa idosa que morre é uma biblioteca que arde em chamas, que se extingue." – PROVÉRBIO AFRICANO.

O “Guinness, o Livro dos Recordes”, edição de 1994, registrava em sua página 305: “A primeira rede de vôlei de praia foi armada no Brasil, em 1934, na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, pelo carioca Altamiro da Fonseca Braga (nascido em 1898) que, aos 95 anos, continuava participando de jogos de vôlei no mesmo local”.

Há indivíduos que lutam uma vida inteira para entrar na História. Outros, sem o perceberem, acabam por fazê-lo. Em 1934, o desportista Altamiro Braga, então tenente-coronel e subcomandante do Forte de Copacabana, mandou cortar duas estacas de madeira e montou a pioneira quadra de voleibol praiano – em âmbito mundial – nas areias da Praia de Copacabana, defronte ao Hotel Londres (de 1919) – já extinto –, onde morava então.

Etiqueta de mala do Hotel Londres

Erguido pelo construtor português Ferreira de Almeida, de porte médio – quatro andares – simples, de cor branca com as janelas verdes, o Hotel Londres – que faliu e foi demolido em 1952 – era bem confortável para a época e situava-se no local onde hoje fica o Edifício Machado de Assis, na Avenida Atlântica.

Muita gente provavelmente estranhou quando Altamiro resolveu estender uma rede na praia para jogar voleibol – que já praticava nas dependências do Forte – entre as ruas Santa Clara e Constante Ramos. Disposta diariamente das oito da manhã ao meio-dia, nela atuavam cinco ou seis pessoas de cada lado.

Certamente não imaginavam que ele estava criando uma atividade esportiva que posteriormente iria encantar o mundo. E que, em 1996, chegaria às Olimpíadas de Atlanta, nos Estados Unidos, ineditamente, através de duas duplas femininas que conquistariam medalhas olímpicas para o Brasil – a de ouro, com Jaqueline Silva e Mônica, e a de prata, com Adriana Samuele Mônica Rodrigues.

Introdução do vôlei de praia, segundo Ibrahim Sued

O que seria das ‘nossas meninas’ se não tivesse havido o general Altamiro Braga? Este ilustre desconhecido que, meio sem querer, mas querendo, estirou a sua rede de vôlei de praia em Copacabana e a fez percorrer o planeta, enchendo de alegria e orgulho o torcedor brasileiro.

Altamiro Braga nasceu em São Cristóvão, em 1898, quase na virada do século 20, filho de Alfredo e de Zenóbia da Fonseca Braga. Na época da mocidade, em postura impecável e utilizando sua bicicleta, costumava escoltar o marechal Hermes da Fonseca (1855-1923), que era o presidente da República (1910-1914).

Aluno brilhante, saído do Colégio Militar, dedicou longos anos ao Exército brasileiro. Sua vida saudável e bem vivida equilibrou-se entre a rigidez da carreira militar, o período da ditadura de 1964 (com a qual nunca compactuou) e sete décadas de praia.

Amigo de fé

Nos tempos da Armada, muitos colegas foram promovidos a general na frente dele, mas Altamiro da Fonseca Braga atingiu um século de existência – o mesmo não se pode dizer da maioria de seus companheiros. Nada mal para quem derrotou outros inimigos tenebrosos, como três isquemias e um câncer de pele.

Como bom virginiano, era dotado de grande audácia e sorte, não temendo as coisas do mundo. Apaixonado por esportes e um entusiasta do Fluminense Football Club, dirigiu o atletismo e o basquetebol na tradicional agremiação das Laranjeiras. Vice-presidente de publicidade, ele organizou várias Olimpíadas Tricolores e eventos amadores, sempre com dedicação exclusiva, e que lhe granjearam merecidíssima benemerência.

99 anos de Altamiro Braga

E foi em 30 de agosto de 1997, no restaurante do Salão Nobre do Clube, que amigos e familiares realizaram uma grande festa – abrilhantada por uma ‘canja’, ao piano, da cantora Maria Lígia Carneiro Leão, que tocou clássicos da música popular americana e brasileira. Celebrava-se a passagem dos seus 99 anos, iniciando-se assim a contagem regressiva para a comemoração do centésimo aniversário em 1998.

O convite para o evento dizia: “Uma ocasião muito especial. A entrada no centenário! Muito mais de meio século dedicado ao seu esporte e clube favoritos! Há muito que festejar!”. Cuidadosamente distribuídos sobre as mesas, coloridos ‘folders’ de cartolina e marcadores de livros, em que se descrevia, sucintamente, a epopeia do aniversariante.

Altamiro Braga com Francisco Horta

Altamiro Braga faleceu em fevereiro de 1999, antes de completar 101 anos de idade. Um dos mais antigos moradores de Copacabana, figura simpática e muito estimada no bairro, residia na Rua Dias da Rocha. General reformado, era viúvo de Dona Lígia, pai de Helinho e Lúcia, e avô de Guilherme, Daniela e Roberta.

É sempre bom ressaltar que são também da década de 1930 as quadras de voleibol de praia do professor Octávio Victor do Espírito Santo (de 1939) – na Rua Dom Pedrito, hoje Almte. Guilhem –, no Leblon; a do doutor Sylvio Lemgruber – na Rua Montenegro, atual Vinicius de Moraes – em Ipanema, e a da ‘Tia’ Leah de Moraes (de 1938), em Copacabana. Todos já faleceram e fizeram história também.

As duplas de vôlei praiano surgiram nos anos 1940, nos Estados Unidos, em praias da Califórnia, onde essa modalidade se desenvolveu, estruturando-se como esporte agora tão em voga. E no decênio de 1950 apareceram na orla marítima carioca. Há quem diga que, na falta de parceiros, foi-se reduzindo o número de participantes, chegando-se então a dois jogadores. O jeitinho brasileiro inventou a “umpla”, atuando apenas um de cada lado, com direito a três toques na bola. Não apenas no vôlei, mas igualmente no futevôlei.

Com família e amigos

“Eu, Professor Jeferson José Moebus Retondar, pesquisador do CNPq no projeto ‘Busca de uma terminologia específica para a área de conhecimento do esporte no Brasil’, venho, através desta, agradecer ao Sr. Fernando Moura Peixoto pelos préstimos a esta pesquisa, fornecendo-nos importante material acerca do frescobol, futevôlei e do vôlei de praia escrito pelo Ilmo. Senhor. Atenciosamente.”
– JEFERSON JOSÉ MOEBUS RETONDAR, Universidade Gama Filho, Centro de Ciências Humanas, Mestrado em Educação Física, 17.06.1992, Rio de Janeiro, RJ.

“Prezado Fernando Moura Peixoto. Preliminarmente o meu agradecimento pelo prestígio de sua audiência. Sua carta me inspirou a uma pauta sobre a longevidade no esporte. Vou aproveitá-la na televisão, onde o recurso da imagem dará fruto bem mais interessante. Espero contar com a sua ajuda na oportunidade.”
– JOSÉ CARLOS CATALDI, Rádio CBN, 13.09.1995, Rio de Janeiro, RJ.

Autor: FERNANDO MOURA PEIXOTO

2 comentários:

HB disse...

Muito bom ver a matéria, Fernando, depois de tantos anos. Simplesmente delicioso. Lembrei muito de você, também, ao assistir aos dois episódios do Almanaque do Esporte - Volleyball no SporTV

Unknown disse...

Meu caro amigo HB. Por mais incrível que possa parecer, somente agora visualizei o seu registro. Após a conquista da medalha de ouro pela dupla masculina de vôlei de praia na Olimpíada, vim rever a matéria e cá estava o comentário elogioso.

Você sabe bem a forte amizade que unia nossas famílias e a admiração que sempre nutri por seu pai. Vou continuar homenageando-o com carinho toda vez que me derem espaço.

Foi bom guardar por tanto tempo as fotos do centenário. Um saudoso abraço a todos.

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