por FERNANDO MOURA PEIXOTO
(ABI 0952-C) [deferência para o Mundo Botafogo]
SINOPSE
O bravo paraibano Francisco – que como tantos outros
nordestinos vieram lutar pela vida no Rio de Janeiro – se tornou uma
personalidade da urbe carioca ao montar, em 1987, uma banca de livros e objetos
usados em plena rua, no bairro de Botafogo. O negócio prosperou, arrefeceu, mas
ainda subsiste.
“OS
VERDADEIROS ANALFABETOS SÃO OS QUE APRENDERAM A LER E NÃO LEEM.”
Mário Quintana (1906 – 1994)
História
curiosa de um mercado de objetos usados, expostos ao ar livre, no tradicional
bairro de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro. Um verdadeiro brechó a céu
aberto, que foi criado em 1987 pelo nordestino Francisco Guedes da Silva, mais
conhecido como ‘Hippão’.
Autodidata, conta que já veio ao mundo ‘aprendido’. Casado, um casal de
filhos e uma neta, ele relembra que recebeu o folclórico apelido quando
produzia manualmente cintos, sandálias de couro e borracha na famosa ‘Feira
de Artes e Artesanato’ durante
as décadas de 1960 e 1970. Chamada de ‘Feira Hippie’, o popular evento –
oficializado em 1968 – acontece até hoje na Praça General Osório, em Ipanema,
aos domingos, embora descaracterizado pela invasão de artigos industrializados
de origem chinesa.
Nascido em 10 de janeiro de 1951 no estado da Paraíba,
na cidade de Guarabira - fundada em 1694 e cognominada“Rainha
do Brejo” -, o capricorniano Francisco veio para o Rio de Janeiro em 1964. Um
menino de 13 anos de idade em plena ebulição de um golpe civil-militar que
derrubou o governo legitimamente estabelecido no país e assumiu o poder,
prenunciando os “anos de chumbo” que viriam em seguida, de triste e
indelével recordação.
“EU
CONSIDERO UM ESCÂNDALO A OBTUSA NATURALIDADE DE QUEM, EM UMA FAXINA DOMÉSTICA,
SE LIVRA DE DOCUMENTOS PRECIOSOS DA NOSSA VIDA LITERÁRIA.”
Humberto Werneck (1945)
Na
esquina das ruas Voluntários
da Pátria e Palmeiras, defronte
aos Correios – o ponto do comércio autônomo de ‘Hippão’ –, das 9 às 17
horas, pode-se encontrar de tudo (ou quase). Muito especialmente livros usados,
que ele recolhe em casas, escolas e bibliotecas, evitando assim sua destruição
e esquecimento, preservando memórias, espalhando conhecimento. E ainda LPs,
CDs, fitas de vídeo, VDLs e cassetes, além de fotografias antigas, quadros,
pinturas e reproduções, aparelhos de som, televisores, todo o tipo de máquinas,
etc... Tudo de segunda mão e nem sempre funcionando a contento.
Centenas de pessoas transitam diariamente pelo local, parando para observar,
comprar ou folhear as publicações, às vezes, raridades. E também bater papo, já
que o guarabirense Francisco é muito sociável, extrovertido e
espontâneo, um emérito contador de estórias (afirma que migrou sozinho, a
pé, para a então Guanabara, caminhando incansavelmente por 18 meses, em um
desafio a si mesmo, num daqueles
casos em que a lenda supera a realidade).
“OS
LIVROS APARECEM E MORREM NAS LIVRARIAS.”
Machado
de Assis (1839 – 1908)
Por
dois anos (de 2012 a 2014) fotografei a atividade de Francisco Guedes da Silva e sua vida cotidiana – um ritual
atribulado e, até mesmo, divertido. Primeiramente, de longe. Depois me
aproximei e tornei-me amigo e cliente. Adquiri vários livros, LPs e CDs. Admito
que me aproveitei e na camaradagem obtive bons descontos nos preços. Em tempos
de crise econômica pechinchar é preciso.
A
preservação da natureza é também uma preocupação do ‘Hippão’. O tenaz
paraibano garante que algumas árvores nos canteiros próximos, nas calçadas,
foram plantadas por ele, que as cuida com atenção e carinho, como a jaqueira e
as palmeiras em que fez questão de posar ao lado, parecendo um ator, em
engraçados solos.
De
mudança programada em breve, Francisco autorizou a exposição de meu trabalho,
cuja trilha sonora, a ‘Sonata
em Dó Maior para Viola da Gamba e Cravo Obligato’, de Georg Friedrich Handel (1865 – 1759), interpretada pelo DUO FOLIA (David Chew,
violoncelo, e Nicolas de Souza Barros, alt-guitar e arranjo), teve a
autoria disputada em 1995, sendo atribuída ao compositor alemão e organista Matthias Leffloth (1705 – 1731). Bem, mas isto já é outra história, e fica
para outra ocasião.
OS
VÍDEOS SOBRE FRANCISCO
“Francisco,
o Espalhador de Livros em Botafogo”
Uma
versão do vídeo em inglês, revista e ampliada, “Francisco, The Book Spreader”,
pode ser acessada através do link http://youtu.be/8NkAm7ef4Ls












2 comentários:
Além de Guarabirense como eu, será que torce também pelo BOTAFOGO ?
Saudações botafoguenses.
Creio que não, Ezaú, caso contrário provavelmente o Fernando dizer-me-ia. Parece que a próxima reportagem de FMP será sim com um botafoguense.
Abraços Gloriosos.
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