Crédito: Elaborado
por IA.
[Nota
preliminar do Mundo Botafogo: a 93ª crônica de Lúcia Senna no Mundo Botafogo cria
mais uma sátira do inusitado Don Carlito Bandoneon.]
por LÚCIA
SENNA | Escritora e Cantora | Colunista do Mundo Botafogo
Há momentos na vida de uma mãe em que não existe dignidade
capaz de resistir ao orgulho.
Meu filho Tiago havia escrito seu primeiro livro. Não era
qualquer coisa. Professor universitário na área de Bioquímica, acostumado a
laboratórios, aulas, pesquisas e todas aquelas coisas sérias que fazem uma mãe
fingir que entende perfeitamente o que o filho explica, enquanto, por dentro,
pensa apenas:
– Meu Deus, como esse menino ficou inteligente!
Há algum tempo, Tiago estava buscando novos caminhos. Fez
cursos de mentoria, desenvolvimento pessoal e de tantas outras áreas que
apontavam para horizontes além da sala de aula. Dessa nova caminhada nasceu o
livro QUEM VOCÊ TEM SIDO?
E não bastasse a emoção do primeiro livro, ele ainda fora
convidado para lançá-lo na Bienal de São Paulo. E mãe, numa situação dessas,
não pergunta se deve ir. Arruma a mala e vai.
Só que, em algum momento – e até hoje não sei como –, Don
Carlito soube de tudo. Provavelmente a culpada fui eu, que devo ter deixado
escapar, no maior orgulho de mãe, que Tiago estaria lançando seu livro na
Bienal.
Para qualquer pessoa normal, essa informação significaria
apenas que ele estaria participando de um importante evento literário. Don
Carlito, porém, entendeu tudo à sua maneira.
Quando dei por mim, ele já havia chegado à Bienal: magro,
elegante, bigodinho impecável, sapatos de verniz brilhando e uma quantidade de
perfume argentino suficiente para deixar um rastro inconfundível pelos
corredores do estande.
Examinou as pilhas de livros, alinhou as cadeiras e olhou
para tudo com a seriedade de quem tinha acabado de ser nomeado diretor-geral da
organização. Só havia um problema imperdoável para alguém daquela magnitude:
faltava ali um trono, onde ele pudesse se sentar, pois Don Carlito não era
homem de dar ordens em pé.
A partir daí começou a organizar item por item. Os
livros, que estavam perfeitamente arrumados, passaram a ser inclinados,
afastados, aproximados e reposicionados segundo critérios que somente Don
Carlito conhecia. Pegou, então, um exemplar e leu o título: “QUEM
VOCÊ TEM SIDO?
Ficou em silêncio. Ajeitou o bigode. Refletiu. Considerou
o título muito bom. Profundo. Mas achou que faltava alguma coisa. Na sua
opinião, a pergunta ficaria mais completa se viesse acompanhada de outra, ainda
mais importante, questionando, por exemplo, quem a pessoa pretendia amar daqui
pra frente.
Ao saber que a sessão de autógrafos começaria, o homem
tratou de buscar mesa e caneta. Foi quando alguém, imprudentemente, o lembrou
de que ele jamais publicara uma obra.
Don Carlito apenas lançou um certo olhar de quem lamenta a limitação intelectual dos outros. Olhou para o infinito, com aquela expressão de homem que já amou demais – ou, pelo menos, garante que sim – e respondeu:
– Meu livro ainda está sendo escrito, querida.”
– E qual é o título?
Don Carlito, suspirou e disse:
– Cem anos de solidão... acompanhada.
E começou a procurar uma plaquinha para colocar sobre a
mesa:
DON CARLITO BANDONEON
Autógrafos e outras consequências amorosas
Logo adiante, notou uma fila se formando. Aproximou-se
com a naturalidade de quem estava acostumado a ser o centro das atenções. Permaneceu
ali distribuindo sorrisos misteriosos, cumprimentando a todos, até descobrir
que ninguém estava nem aí pra ele: o pessoal queria apenas comprar livros. O
choque deixou-o visivelmente decepcionado.
Ao ver alguém autografando livros, não resistiu.
Aproximou-se, sentou-se, pegou uma caneta e, antes que fosse impedido, tascou
uma dedicatória para uma tal de Luciana, transbordando paixão, saudade e um
leve arrependimento.
O detalhe é que a obra tratava de inteligência artificial,
mas Don Carlito não viu qualquer problema nisso: bastava esclarecer que a dele
era absolutamente natural.
Foi na breve ausência de Tiago que o desastre aconteceu:
Don Carlito assumiu as vendas. Cada
pessoa que se aproximava corria o risco de sair dali sem saber se havido
garantido um exemplar ou se tinha acabado de iniciar uma sessão de terapia.
Ele investigava quem a pessoa havia sido, quem pretendia
ser e por quem se apaixonara. O resultado? Clientes confusos em plena crise
existencial. Alguns desistiram da compra
mergulhados na dúvida cruel de quem, afinal, tinham se tornado nas últimas
quatro décadas.
Ao regressar, meu filho viu uma pequena fila ao redor do
quiosque e sorriu, achando que o movimento estava bombando.
Ledo engano. O homem foi logo esclarecendo que não havia
vendido nenhum livro. Em compensação, três pessoas choraram, duas terminaram o
namoro pelo celular e um rapaz decidiu largar o emprego ali mesmo.
Tiago sussurrou, entre dentes:
– Don Carlito, pelo amor de Deus, o livro é sobre desenvolvimento
pessoal!
Ao que ele respondeu categórico:
– Exatamente o que estou fazendo. Estou desenvolvendo as
pessoas.
Foi naquele instante que Tiago começou a entender que
nenhuma formação acadêmica prepara um ser humano para lidar com Don Carlito.
Quanto a mim, voltei pra casa carregando muito mais do
que lembranças, fotografias e o orgulho de ter visto meu filho na sua primeira
bienal.
Voltei com a certeza de que sonhos, quando encontram
coragem, às vezes ganham capa, título, páginas...
E outras vezes aparecem de bigode, sapato de verniz e
perfume argentino, querendo comandar o estande de vendas.
E talvez essa seja a verdadeira pergunta que ficou daquela
viagem: QUEM VOCÊ TEM SIDO?
No caso de Don Carlito – o argentino mais sem noção que
jamais conheci – ninguém sabe ao certo. Mas uma coisa é garantida: onde houver
um livro, uma cadeira vazia e a menor possibilidade de dar um pitaco... ele
estará lá.

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